rascasteroide

Descoberto em dezembro de 2004, o asteróide 99942 Apophis causou furor na comunidade científica internacional após pesquisadores da NASA o classificarem como potencialmente perigoso.  De acordo com as primeiras observações, o objeto poderia se chocar com o planeta em 2029 ou ainda em 2036, caso passasse por uma fenda gravitacional que alterasse sua trajetória e o colocasse em rota de colisão com a Terra.

Cálculos posteriores indicaram que eram ínfimas as possibilidades de o evento cataclísmico ocorrer. Mas a mudança de posicionamento veio tarde demais. A notícia já havia se espalhado e os profetas do apocalipse - que apontavam a aproximação de um suposto planeta em 2012 como o fim da humanidade - ganharam uma nova data para disseminar o pânico na internet.

O tempo fez com que o assunto ficasse relativamente esquecido, mas, na última semana, o Apophis voltou a ser tema de debates depois de cientistas chineses anunciarem que pretendem enviar uma sonda para desviar sua rota. A Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) planeja missão semelhante, prevista para 2015, e a Rússia também cogitou fazer o mesmo, mas desistiu.

Afinal, se não há risco, por que tanta mobilização? Estariam os astrônomos ocultando informações sobre a real gravidade da situação? A pesquisadora do Observatório Nacional Daniela Lazzaro garante que não. Segundo ela, os projetos visam apenas testar a eficácia das soluções teóricas para evitar transtornos futuros. Confiram a entrevista.

O Apophis representa uma ameaça real?

O temor é infundado. Em primeiro lugar, a chance de vir a colidir com o planeta é remotíssima. Todos os cálculos indicam que o mais provável é que, em 2036, o asteroide passe a 40 mil km da Terra, ou seja, um décimo da distância em relação à Lua. Em segundo lugar, ele é relativamente pequeno (entre 300 e 400 metros de diametro). É claro que se caísse em uma cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro causaria muitas mortes diretas e indiretas, mas não colocaria em risco a vida como um todo.

Por que, então, tantas missões para desviá-lo?

As técnicas que existem até o momento estão apenas no campo teórico. Talvez aí esteja a explicação para este interesse súbito em enviar uma sonda que faça com que o Apophis mude de rota. Não é porque ele é perigoso, mas, sim, porque representa uma boa oportunidade para testar se as propostas são, de fato, eficientes.

Quais seriam essas técnicas?

Existem diversas alternativas que poderiam ser utilizadas. Elas são divididas entre as "destrutivas" e as ”não destrutivas”.  A escolha de qual será utilizada depende de uma série de fatores. O primeiro, e mais importante, é o tempo disponível entre a descoberta e a data de colisão. Se for pequeno, da ordem de alguns anos, a técnica destrutiva (bombas nucleares, por exemplo) é certamente a mais indicada. Se, no entanto, houver tempo hábil (décadas), a melhor opção é alterar a rota. 

Nota: Isto, teoricamente, poderia ser feito com o uso de velas solares, foguetes propulsores e até pintando a superfície do asteroide com tinta branca. A última opção, embora curiosa, é factível. A mudança de coloração aumentaria a reflexão solar e afetaria a órbita. O fenômeno é conhecido como efeito Yarkovski.

E quanto aos cometas?

Seria bem mais complicado impedir o choque com um cometa devido à velocidade, em geral nuito maior. Eles, entretanto, tendem a ter uma estrutura bastante porosa, o que facilita a fragmentação e diminui sensivelmente o perigo.

Há, hoje, algum objeto potencialmente perigoso conhecido?

O mais perigoso de que se tem conhecimento é o 2011 AG5. Ele chega ao nível 1 na escala de Torino (colisão extremamente improvável) e poderia vir a se chocar com o planeta entre 2040 e 2047. Mas, como foi descoberto recentemente, é bem provável que novas observações descartem tal chance. O problema, entretanto, é que não conhecemos toda a população desses objetos. Certamente podem existir asteroides mais ameaçadores ainda não detectados. Por este motivo, existem diversos projetos de monitoramento do céu visando descobrir e catalogar todos esses corpos. O IMPACTON (Iniciativa de Mapeamento e Pesquisa de Asteroides nas Cercanias da Terra), do Observatório Nacional, é um deles.

Nota: A escala de Torino varia de 0 (risco desconsiderável) a 10 (colisão certa, capaz de levar a humanidade à extinção). Quando descoberto, o Apophis chegou ao nível 4 (1% ou mais de chances de colisão), mas observações posteriores o rebaixaram para o nível 0.

Caso fosse constatado um impacto inevitável, o que aconteceria?

Depende. Vale lembrar que pedaços de asteroides e cometas caem todos os dias. Quem nunca viu uma "estrela cadente"?  Ou um meteorito? Todos são fragmentos pequenos de asteroides e cometas que ou se desintegram completamente ao atravessar a atmosfera, ou conseguem chegar ao solo, mas sem causar grandes estragos. Apenas os maiores do que  4km são capazes de provocar eventos de extinção em massa, como acredita-se ter ocorrido com os dinossauros. As consequências também dependem de outras variáveis: a composição, a densidade, a velocidade e a direção do objeto.

Para finalizar, há uma corrente que acredita que um suposto planeta chamado Nibiru irá se chocar com a Terra em 2012. Isto é fisicamente possível?

Não. Nibiru até poderia existir, mas estaria em órbita muito distante e, provavelmente, quase circular como a dos demais planetas. Não há a menor possibilidade de colisão.

Carlos Caroni - [email protected]