Carreira: o que fazer quando bate a insegurança?

Há quem diga que a adolescência é a parte mais complicada da vida. Explosões de hormônios, crises de identidade, necessidade de autoafirmação, descoberta da sexualidade, conflitos com os pais e, talvez a maior fonte de insegurança e pressão: o vestibular. É nessa época, quando os problemas se resumem em ter ou não permissão dos pais para ir à festa de sexta-feira ou na viagem da turma, que os jovens precisam fazer uma das escolhas mais importantes da vida: o que eu vou ser quando crescer?

A escolha muitas vezes é motivada pelas aptidões nas matérias preferidas da escola ou impulsionada por testes vocacionais. Mas, não importa o quanto se policie para fazer a escolha certa, lá na frente você pode se ver infeliz. E aí, como faz? Joga o investimento financeiro, emocional e físico pela janela e parte para outra? A resposta certa seria sim, mas não é todo mundo que tem o desprendimento e a coragem de tomar uma decisão dessas.

“Quando a pessoa vê que não era bem aquilo que ela queria, a decisão de mudar de carreira e de faculdade é muito difícil mesmo. Porque é como se ela tivesse um compromisso consigo  e com a sociedade de fazer aquilo para o resto da vida”, explica a psicanalista e professora de Psicologia da PUC-Rio, Júnia de Vilhena.

Foi por este dilema que Eduardo Malheiros passou quando cursava o sexto período da faculdade de Informática, na Unirio. Ele passou no vestibular com 17 anos e entrou na faculdade com 18. A escolha do curso veio do hábito de navegar na internet e dos resultados dos testes vocacionais, que apontavam sempre para um curso de exatas.

“Nos primeiros períodos ainda tinham algumas matérias de programação que me motivavam, pois eu gostava de ver as coisas que eu programei funcionando. Mas depois aquilo foi se tornando uma tortura. Eu chegava na faculdade já querendo ir embora, me sentia um peixe fora d’água, sentia que não pertencia àquele grupo”, conta.

A decisão foi amadurecendo internamente, e ele começou a pensar em seguir outra profissão. Como acompanhava muito esporte e mantinha um blog sobre o assunto, a escolha pendeu para o Jornalismo. Mas as discrepâncias eram gritantes. A Informática , um mercado em expansão, lhe oferecia a oportunidade de salários altos e uma abundância de empregos. Já o Jornalismo oferecia as poucas oportunidades típicas de um mercado saturado.

“Mudei de faculdade com a certeza de que eu tinha que sair da Informática, mas não muito certo se eu queria fazer Jornalismo. Como tinha 21 anos, não estava mais no clima de calouro, recém-saído da escola. A diferença de idade e de mentalidade me fez repensar, mas acabei gostando muito do curso”, diz ele, que ainda não se convenceu de que está na profissão certa.

 A professora de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mariene Campos Cardoso, explica que, para situações como esta, o ideal é que a pessoa busque fazer uma orientação profissional, onde a pessoa faz uma série de exercícios para ter mais confiança, traçar metas, objetivos, analisa seu estilo de tomada de decisão, entre outras coisas.

“São coisas importantes e que as pessoas muitas vezes não conseguem enxergar sozinhas. Às vezes a pessoa não precisa nem mudar de profissão, apenas  precisa descobrir uma afinidade dentro daquela área, como uma menina que me procurou recentemente. Ela tinha acabado a faculdade de Medicina, mas não queria fazer residência. Queria jogar tudo fora e fazer Economia. Depois de algumas sessões, ela acabou vendo que poderia continuar na área médica, mas fazendo pesquisas. Ela fez um mestrado e hoje trabalha em uma consultoria, feliz da vida”, conta Mariene.

A empresária Manuela Duarte experimentou a orientação profissional quando estava no último período da faculdade de Economia. Depois de anos sofrendo com a rigidez dos professores e com as intermináveis matérias de cálculo, ela percebeu que se continuasse se forçando a seguir aquele caminho, seria infeliz. Com ajuda de uma psicóloga, ela percebeu que poderia unir seus conhecimentos com sua maior paixão: a moda.

“Percebi que seria mais feliz se abrisse meu próprio negócio usando todo o conhecimento que adquiri na faculdade. O que mais me assustava é que os meus colegas que trabalhavam na área diziam que não tinham vida, trabalhavam 13, 14 horas por dia. E eu não queria isso pra mim, nem por todo dinheiro do mundo. Fiz faculdade de Moda e abri uma consultoria de estilo que deu super certo”, orgulha-se.

Já a estudante Marcela Bastos deu uma reviravolta na vida por conta própria. Prestou vestibular para Psicologia, mas passou para Ciências Sociais em uma universidade pública e acabou cursando. Quando o tema Monografia começou a ficar constante, ela se desesperou e viu que precisava pular fora, pois não era isso que ela queria.

“Tranquei a faculdade e comecei a fazer Direito. Me apaixonei e vi que é isso que quero fazer na vida, mas continuo fazendo algumas matéria da faculdade antiga, quando tenho tempo. É um assunto que eu gosto de estudar, apesar de não querer trabalhar na área”, afirma.

Para os que não têm coragem de mudar de curso, Mariene alerta para os riscos que a insatisfação profissional pode trazer para a saúde. Pressão alta, diabetes e estresse podem aparecer quando a pessoa força seus limites em uma situação com esta. Já para aqueles que pulam de galho em galho, sem saber o que querem, Júnia alerta para a dificuldade de comprometimento.

“Tem gente que tem dificuldade de fazer esse ritual de passagem do estudante para o profissional. A troca deve ser incentivada, se a pessoa vê que não tem nada a ver. Por outro lado, há quem tenha essa necessidade de ficar na situação de estudante, sem precisar se posicionar no mercado de trabalho”, analisa a psicanalista.