Falta de médicos e baixa qualidade de equipamentos preocupam nefrologistas

Em dez anos, o Brasil apresentou um aumento de 38% na taxa de mortes de pacientes renais crônicos. São casos de pacientes que dependem de uma máquina que substitui a função dos rins. Os dados são de um censo realizado pela Sociedade Brasileira de Nefrologia. Estimativas dão conta que existem hoje cerca de 10 milhões de pacientes renais no Brasil. 

Entre os fatores apontados por especialistas para esse cenário crítico estão: falta de médicos nefrologistas que atendem pelo SUS, falta de uma estrutura adequada nos postos de saúde que antecipariam o tratamento do paciente e uso de máquinas deficitárias no atendimento. 

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia comenta que o problema começa numa estrutura primária no cuidado ao paciente renal em postos de saúde, quando a doença ainda está nos estágios precoces. Segundo Roberto Pecoits, com um diagnóstico muito tardio, os pacientes acabam sendo diagnosticados dentro dos hospitais e são encaminhados diretamente para o tratamento de substituição em função renal com a diálise em condições ruins. 

"O fator agravante é a necessidade dele entrar urgentemente em diálise quando a única opção de se fazer isso é por um cateter numa veia do paciente. Isso aumenta, em muito, não só os custos, mas os riscos de complicações, riscos de infecção e de mortalidade", explica o médico.

A falta de investimento do Sistema Único de Saúde acaba custando caro. "É extremamente caro por causa das internações prolongadas que esses pacientes necessitam e sem falar no impacto que tem no risco de mortalidade desse paciente", completa Pecoits.

A falta de cobertura para alguns procedimentos específicos também preocupa os líderes das sociedades gaúcha e brasileira de nefrologia. São serviços não cobertos pelo SUS, como instalação de um acesso vascular para diálise e também a responsabilidade que acaba sendo da clínica em garantir a internação dos pacientes do SUS, não sendo reembolsados por isso. 

"A clinica tem que assumir coisas que ela não recebe reembolso o que aumenta bastante as dificuldades financeiras que elas têm que se manter", explica Pecoits. 

A Sociedade Gaúcha de Nefrologia trabalha para conscientizar a população dessa realidade. O presidente da entidade, João José de Freitas, defende medidas urgentes.

"A obrigação da Sociedade Gaúcha e da Brasileira de Nefrologia é justamente levar ao conhecimento da população esses direitos que não estão sendo contemplados. O paciente do SUS chega praticamente morrendo na frente do médico por todas as complicações da insuficiência renal avançada. Nos cabe, em primeiro lugar, praticamente "ressuscitar" esse paciente com o auxilio de nosso colega intensivista numa UTI porque ele praticamente perdeu os rins", comenta.

A outra dificuldade relatada pelos médicos nefrologistas é a baixa qualidade dos equipamentos usados para o atendimento pelo Sistema Único de Saúde. No Rio Grande do Sul os equipamentos, quase todos, têm mais de 10 anos e já deveriam ter sido trocados.

"Não se consegue isso porque uma máquina de hemodiálise custa em torno de 40 a 50 mil reais. Os serviços têm em torno de 15 a 30 máquinas, em média, então é um custo extremamente elevado e o valor que o SUS está pagando para o tratamento dialítico não contempla a mudança do parque das nossas máquinas", comenta Freitas.