Mundo geek: mulher ganha espaço, mas ainda há preconceito

No século 21, em um mundo comandado pela revolução da internet e explosão da individualide, existem muitos fatores para que palavras como "exclusão" e "preconceito", por exemplo, dessem lugar para o respeito e o convívio harmônico, como visto na Campus Party 2011, que aconteceu de 17 a 23 de janeiro, no Centro de Exposições Imigrantes, em São Paulo. O encontro, que reúne mais do que o dobro de homens em relação ao número de mulheres, torna-se um local propício para se analisar se a mulher, apesar do ganho de espaço na sociedade, ainda sofre preconceito quando o assunto é tecnologia.

Ana Lúcia Pereira, de 23 anos, estudante de Bauru, no interior de São Paulo é, por assim dizer, um fruto híbrido da modernidade. Ela faz curso técnico para psicologia, mas a tecnologia é uma paixão de muitos anos. " Por enquanto, tecnologia é só hobby. Às vezes dá a louca, dá saudade e daí programo alguma coisinha em PHP", brincou.

Para ela, o preconceito também pode partir do posicionamento da própria mulher. "É questão de você se sentir igual a eles. Não sou minoria aqui dentro. Você só estará em minoria se você se sentir em minoria", afirmou. A estudante também complementou que, ao contrário, ela entende a tecnologia como uma área mais aberta, justamente pelo fato de que ela pode servir de subsídio para diversas áreas, que agregam vários elementos nesta relação. Da mesma maneira, para Trayce Martins, jogadora de RPG de 23 anos que veio de Osaco, o problema não é só quando o homem desconfia da capacidade das mulheres. "Tem mulher que também desconfia de outras mulheres, achando que são homens que se passam por mulheres", constatou.

Suellen Goulart é analista de sistemas e, aos 23 anos, faz pós-graduação. Ela trabalha com desenvolvimento de software para web e afirmou que, em sua área, nunca foi vítima de preconceito. " Entrei em um curso técnico de Processamento de Dados, foi onde comecei a conhecer a área de desenvolvimento de software. Daí me apaixonei pro resto da minha vida", contou.

Com um discurso um pouco diferente, Helena Siena, gamer "profissional" de 18 anos, veio de Porto Velho, Rondônia, para falar que os homens até gostam de ver as meninas jogando. Para ela, uma das maneiras de fazer as meninas aprenderem a gostar da atividade é jogando com os namorados. "Quando as meninas jogam junto com os namorados, já não tem mais isso", referindo ao fato de que mulheres reclamam que homens que jogam videogame não dão atenção a elas.

Não é preciso ir muito longe para achar um contraponto. Alguns metros depois, as meninas do site Garotas Geeks, que não são descuidadas, reclamaram que, nos comentários dos posts, é enorme a quantidade de homens preconceituosos que falam frases de pouca classe e dizem que elas só mantêm um site para arrumar um casamento. "Isso é um absurdo", falou Déborah Cabral, conhecida como "xuxu". "Se eu quisesse homem, eu ia pra academia e pra praia. Não ia ficar na frente de um PC", reclamou.

Tamirys, a "Popozuda Rock'n Roll" que se autointitula jornalista tecnófila, contou aos campuseiros que beleza é algo que não se espera de mulheres que gostam de tecnologia. E, na maior parte das vezes, para ela, as pessoas têm razão. "Eu era toda corcunda, eu era meio torta, mas hoje eu fui salva porque Jesus apareceu na minha vida", brincou. Mas isso, como ela bem lembra, não é motivo para preconceito ou dúvida sobre a competência do profissional.

Cansadas do preconceito, elas resolveram encarar a situação com bom humor. Bárbara, a "Babs", contou que as meninas fizeram um post para tirar sarro justamente as pessoas que riram dela. "Criamos um post com fotos nossas 'peladas'. Na verdade, eram nossos rostos, mas com corpos de atrizes famosas", falou. E, segundo ela, houve quem não entendesse. "Eu tive que explicar a piada. Até parece, para eu ser a Megan Fox, eu tinha que emagrecer pelo menos uns 25 quilos", disse, arrancando risos de quem ouvia a fala.

Pelo que se pôde observar na Campus Party Brasil 2011, a diversidade, as diferentes tribos e as distintas orientações sexuais vivem em harmonia. A mulher, conforme consta dos dados oficiais do evento, teve a maior fatia de participação na história deste que é o maior encontro geek do planeta. Mas há, no entanto, como mostram algumas meninas, um longo caminho pela frente.