Butantan: boa parte dos exemplares originais de cobras se salvou

Marcelo Gigliotti , Jornal do Brasil

RIO - O Instituto Butantan se tornou famoso pela produção de soro antiofídico. Pelas imagens do veneno de cobras escorrendo para dentro de recipientes. Porém, para a comunidade científica, seu grande tesouro era a coleção de serpentes, aranhas e escorpiões, grande parte dela perdida no incêndio ocorrido no sábado. Mas em meio à consternação sobre a perda deste acervo, uma notícia revelada ao JB por um cientista da USP dá um relativo alento: 70% dos exemplares originais usados para descrever espécies de serpentes brasileiras estão preservados e continuarão a dar importante contribuição para a ciência.

Trata-se de um material de suma importância como referência para estudo e identificação de novas espécies de cobras diz o diretor do Museu de Zoologia da USP, Hussam Zaher, especialista em serpentes.

Na verdade, o material que escapou não é tão grande assim em quantidade. Mas é rico em qualidade. São cerca de cem exemplares distintos. Aparentemente pouco em relação aos 85 mil espécimes de serpentes que se perderam no incêndio. Mas estes cem exemplares são bastante representativos da rica diversidade de cobras do Brasil. E servirão para ajudar cientistas a descreverem novas espécies.

Eu mesmo estou descrevendo espécies novas com serpentes preservadas emprestadas pelo Butantan diz o cientista da USP, que acaba de descrever a espécie Pseudoboa martinsi.

Hussam Zaher é um entusiasta da história do Butantan. Ele diz que o Brasil, devido à sua biodiversidade, tem muito mais cobras do que os países temperados. Então, estes países nunca precisaram fazer grandes bancos de dados sobre serpentes. Já o Brasil, através do Butantan, desde os primórdios da instituição fundada em 1901 por Vital Brasil, se deparou com uma enormidade de espécies.

Logo se percebeu que era preciso catalogar as espécies brasileiras. Rapidamente, a coleção se expandiu. Chegavam diariamente cobras de todos os pontos do país. O Butantan já catalogou mais de mil colaboradores ou coletores, que trocavam as serpentes por soro antiofídico diz o herpetólogo da USP.

Aliás, segundo Zaher, logo a coleção de serpentes se desvinculou do setor de produção de soros, e ganhou importância própria.

Ela vinha servindo para responder a questões biogeográficas e evolutivas. Em suma, atendia a um leque enorme de indagações e pesquisas científicas explica Hussam.

É claro que com o incêndio houve uma perda enorme, diz o cientista da USP. Afinal, o acervo foi sendo montado durante mais de cem anos. Os ambientes naturais onde foram coletadas as serpentes foram urbanizados, e muitas espécies se extinguiram.

Cada exemplar era um documento de alto valor científico. Portanto, havia 85 mil mil registros únicos para a ciência. Era a maior coleção de serpentes neotropicais do mundo comenta Hussam Zaher.

Para Zaher, a acomodação do acervo era inadequada. As 85 mil serpentes e as 450 mil aranhas e escorpiões ficavam em um galpão.

Esta coleção merecia um prédio moderno, com características de um museu de história natural critica. Há anos, a comunidade científica vinha tentando melhorar as condições de armazenamento. Não faltou alerta.