À injustiçada fita cassete só resta ser ícone pop

Marcelo Gigliotti, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Todo mundo vive dizendo que as vendas de vinil só vêm aumentando, que o som é uma maravilha, dá para ouvir legal o baixo etc e tal. Mas ninguém fala de outro ancestral, digamos assim, do som digital: a esquecida fita cassete. Mas um interessante artigo publicado no New York Times tenta mostrar que a fita cassete, embora tenha sucumbido à revolução tecnológica e esteja meio extinta como suporte para ouvir música, pelo menos se tornou um ícone da cultura pop.

Realmente, os lançamentos musicais em fita cassete despencaram. Ano passado, nos Estados Unidos, foram apenas 34 mil lançamentos no formato, segundo o jornal americano. A indústria fonográfica vende milhões de cópias da artistas diversos por ano, nas novas mídias. Aliás, enquanto ainda vende, nestes tempos de download na internet.

Mas o autor do artigo do New York Times, Rob Harper, diz que fuçou a internet e descobriu evidências , como um arqueólogo da tecnologia, de que ainda existem tribos (termo bom para temas nostálgicos) que não dispensam a boa e velha fita cassete, com seus rewinds e fast fowards. Parece que não são poucos, lá nos EUA. Segundo Harper, há algumas bandas alternativas, é claro que gravam seus trabalhos em fitas cassetes, com os jurássicos gravadores.

Segundo o artigo de Harper, a fita cassete não tem a majestade dos vinis . Realmente, dando um rewind na memória, no tempo em que não havia CDs ou DVDs, ninguém corria às lojas para comprar a mais recente fita cassete de Prince. Tampouco se publicou listas das melhores fitas cassete de todos os tempos . As pessoas iam a lojas de discos, e não a lojas de fitas cassete, argumenta Harper.

Mesmo assim, o que me surpreendeu quando resolvi avaliar a situação das fitas em 2010 não foi perceber que ainda há bandas gravando no formato. O que me chamou a tenção foi o fato de a fita cassete ter se tornado um ícone pop . Ele se refere a pinturas contemporâneas, grafites de rua, bolsas feitas no formato de fitas cassete, além de objetos de decoração.

Alguns artistas, como uma tal Alyce Santoro, usam as velhas fitas como matéria-prima, no sentido literal, para fazer suas obras de arte, reciclando plásticos e a fita magnética que vem dentro do saudoso tape. Harper cita o trabalho de designers industriais, como Marc Jacobs que criou pen drives em formato de fitas cassete.

O artigo, sempre com uma abordagem bem-humorada, fala sobre a injustiça e a falta de reconhecimento dos usuários de tecnologias modernas, como iPods, e MP3 players, com o pioneirismo da fita cassete. Foi ela que deu origem ao que se chama hoje de portabilidade. Quem nunca caminhou ao som de uma fita cassete rodando num velho walkman? , indaga Harper.

É claro que as mídias modernas têm vantagens de sobra em relação às fitas. Encontrar uma canção numa fita cassete é um suplício, um tal de avançar e voltar atrás na fita até achar o ponto certo. Nisso, até o vinil, admita-se, a supera. Mas, segundo Harper, para muitos puristas, esta busca, irritante para muitos, era uma espécie de ritual. O cassete tinha ou tem, para quem possui um daqueles gravadores o charme das fitas virgens, nas quais o cidadão podia personalizar uma trilha sonora e dar de presente à namorada. E ainda escrever na fita: Com amor .

Este seria o maior legado da fita cassete e a razão de sua inserção para lá de honrosa na história da tecnologia musical.