Ibama vai iniciar operações de combate ao desmatamento na Caatinga

Luciana Abade, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Entre 2002 e 2008, a caatinga, único bioma 100% brasileiro, perdeu 16.500 km² de sua cobertura original. A taxa anual média de desmatamento entre 2002 e 2008 foi de 2.763 km ². A caatinga já teve 45% de sua área desmatada. Se o desmatamento continuar no ritmo em que está, um terço da atividade econômica do Nordeste vai desaparecer até o final deste século. A vulnerabilidade social das pessoas que vivem na região torna o dado ainda mais preocupante.

A principal causa da destruição da caatinga é a extração da mata nativa que é transformada em lenha e carvão para as indústrias siderúrgicas do Espirito Santo e Minas Gerais. O uso dessa matéria prima como fonte de energia em pequenas indústrias e residências no Nordeste, assim como a pecuária bovina, tem contribuído para a devastação.

Proporcionalmente, o desmatamento da caatinga tem sido semelhante ao da Amazônia afirmou o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que lançou terça-feira, em Brasília, o monitoramento da caatinga. Até o momento, apenas a Amazônia era monitorada. O objetivo do ministério é ter os seis biomas brasileiros caatinga, amazônico, cerrado, pantanal, pampa e mata atlântica sob monitoramento até o final do ano.

Segundo Minc, para burlar a fiscalização, os transportadores ocupam um terço do caminhão, a parte de cima, com carvão de manejo e os dois terços inferiores com carvão feito de mata nativa, o que é ilegal.

No dia que esta criatividade for usada para coisas boas, teremos um país bem melhor ponderou o ministro.

O ministro destacou que é preciso pensar em alternativas energéticas para que a caatinga possa ser poupada. O grande potencial de energia eólica e solar do Nordeste, por exemplo, ainda tem sido desprezado.

Desmatadores

A Bahia e o Ceará foram os estados que mais desmataram a caatinga até agora. Enquanto a Bahia já desmatou 154 mil km² dos 300 mil km² que tinha de caatinga, o segundo já devastou 58 mil km² dos seus 147 mil km² originais. Alagoas aparece no oitavo lugar da lista de estados que mais desmataram o bioma. Mas a situação é grave porque Alagoas já perdeu quase 11 mil km² dos poucos 13 mil km² que tinha originalmente.

O Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) começará na próxima semana uma série de 25 operações de fiscalização na caatinga. A ideia é autuar de quem extrai de forma incorreta a madeira até o receptor. As ações de combate à pratica ilegal na região, no entanto, são dificultadas pela pulverização do desmatamento.

Começará quarta-feira em Petrolina (BA) e Juazeiro (BA) uma reunião para tratar do Plano de Combate à Desertificação no Nordeste com a participação de todos os governadores e secretários de Meio Ambiente da região.

Segundo Minc, também existe a intenção de destinar metade do Fundo de Mudanças Climáticas para a recuperação da caatinga. Já o Banco do Nordeste estuda a criação do Fundo Caatinga.

Sem cuidados adequados, região pode virar deserto

A profecia de Antônio Conselheiro de que o sertão vai virar mar provavelmente não será concretizada. Com o ritmo de desmatamento da caatinga, é mais provável que o sertão vire deserto, se medidas preventivas não forem tomadas urgentemente para preservar o bioma que já teve 45% da sua área desmatada. A devastação pode diminuir as chuvas e forçar o êxodo da população do interior para as grandes cidades gerado um processo de favelização nas mesmas. A previsão é da organização não-governamental Greenpeace.

Pela sua vegetação árida, a caatinga pode sofrer mudanças drásticas com a elevação da temperatura. A água pode ficar ainda mais escassa. E, ao mesmo tempo, a instabilidade do clima na região pode fazer que com tenha enchentes em alguns momentos do ano afirma o coordenador da Campanha do Clima do Greenpeace, João Talocchi.

Segundo o coordenador, um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostra que no mellhor cenário, o milho perderá 15% de sua área de produção no Brasil, o que corresponde a um prejuízo anual de R$ 1,5 bilhão. E o milho é um produto muito produzido na caatinga, ainda segundo o coordenador.

Talocchi destaca que além das indústrias gesseira e de cerêmica, o consumo de lenha e carvão para a subsistência tem prejudicado o bioma. A solução, aponta ele, é levar energia elétrica para a população mais carente que usa lenhas para cozinha, por exemplo e investir em políticas de energia eólica e solar nas pequenas comunidades.

Para o coordenador, o monitoramento do bioma é fundamental para sua conservação, mas só trará resultados se o governo levar técnicas de cultivo auto-sustentável para a região e obriga as indústrias a plantarem as árvores serão transformadas em carvão, a fonte de energia.

Talocchi destaca ainda o fato da caatinga, ao contrário da Amazônia, não estar no foco da pressão internacional fez com ela ficasse esquecida por muito tempo:

Falar da preservação da caatinga ainda não comove.

Diversidade biológica do Brasil é exaltada pela indústria farmacêutica

Fábio Reynol, especial para o JB *

Os produtos naturais foram fonte de cerca de metade dos compostos químicos descobertos entre 1981 e 2002. Nesse contexto, ao abrigar cerca 20% da biodiversidade mundial, o Brasil está em uma posição privilegiada como fornecedor de novos químicos, de acordo com especialistas presentes no Workshop Internacional Biota-Fapesp sobre Metabolômica no Contexto da Biologia de Sistemas, que termina nesta quarta-feira (26/2), na sede da Fapesp.

Segundo Emerson Ferreira Queiroz, gerente de pesquisa e desenvolvimento da Aché, a indústria farmacêutica tem reconhecido e valorizado cada vez mais a natureza como fonte de novas moléculas. Entre vários exemplos, citou a rapamicina, molécula obtida de uma bactéria encontrada na Ilha de Páscoa, no Oceano Pacífico.

O medicamento é utilizado como imunossupressor, prevenindo a rejeição de órgãos transplantados, especialmente os rins.

O nome do princípio ativo foi dado em homenagem à ilha, que era chamada por seus nativos de Rapanui disse.

Do mesmo modo, foi a partir da saliva do lagarto venenoso conhecido como Monstro de Gila (Heloderma suspectum) que surgiu um medicamento para o tratamento da diabetes tipo 2. E, a partir de um molusco marinho Conus magus, foi desenvolvido o ziconotida, um poderoso analgésico empregado para tratar dores crônicas.

Adriano Andricopulo, coordenador do Laboratório de Química Medicinal e Computacional do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo, outro palestrante no primeiro dia do workshop, concordou com o imenso potencial natural.

Com a grande diversidade biológica de nosso planeta, particularmente no Brasil, temos uma importante oportunidade para descobrir compostos que levem ao desenvolvimento de novos medicamentos para prevenir doenças e distúrbios que afetam o homem disse.

Queiroz ressaltou a importância da Amazônia, mas afirmou que o país deveria prestar mais atenção em outros biomas.

O Brasil tem muito mais do que a região amazônica. Há o Pantanal, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica e os Pampas. Todos fontes inexploradas de moléculas para a indústria de medicamentos disse.

Queiroz ressaltou que o desenvolvimento científico e tecnológico no setor farmacêutico evoluiu muito nos últimos anos, o que tem facilitado o desenvolvimento de novos medicamentos.

Hoje, já podemos criar estruturas aplicáveis a partir de 1 micrograma de uma substância descoberta. Quando comecei a carreira, eram necessários no mínimo 20 microgramas e, na época do meu pai, não dava para fazer uma estrutura com menos de 70 miligramas de material comparou.

Andricopulo destacou que a mudança promovida na pesquisa de medicamentos da abordagem tradicional para uma baseada na genômica e na proteômica tem transformado estratégias fundamentais de pesquisa e desenvolvimento na indústria farmacêutica.

A descoberta de drogas é um processo altamente complexo e caro, que demanda esforços integrados em diversos aspectos relevantes envolvendo inovação, conhecimento, tecnologias, pesquisa e desenvolvimento e gerenciamento disse.

Duas questões importantes para o desenvolvimento de medicamentos a partir de produtos naturais são a localização de alvos moleculares apropriados e a seleção de moduladores de pequenas moléculas, que vão fazer a ligação da proteína com seu alvo. Há uma conexão clara entre biologia e química medicinal ressaltou.

* Da Agência Fapesp