Especialistas temem que pré-sal suje matriz energética

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SÃO PAULO - As grandes descobertas de petróleo do pré-sal brasileiro, apesar de serem uma reserva de riqueza para o país, ameaçam reduzir a importância de fontes limpas de energia, entre elas os biocombustíveis, disseram especialistas.

Uma eventual grande oferta de produtos derivados do petróleo no mercado brasileiro quando os grandes projetos de produção e refino de petróleo estiverem implantados poderia reduzir a competitividade de alternativas energéticas como etanol, biodiesel e a geração por biomassa.

Essa possibilidade alimenta o debate sobre uma eventual mudança na matriz energética brasileira, com aumento da fatia de não-renováveis.

Membros do governo já se manifestaram contrários a políticas adotadas no passado por alguns países petroleiros que se mostraram negativas para a economia, como a oferta de gasolina barata e o excessivo foco em apenas um setor o de petróleo , negligenciando outras áreas. Mas condições do mercado podem alterar essa posição.

- Eu acho que tem que tomar cuidado para que o pré-sal não faça com que a matriz energética brasileira tome uma rota suja - disse Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura.

- O país não pode sucumbir à tentação populista de subsidiar os produtos derivados e levar a um aumento do uso de petróleo. Tem que ter cuidado para não inviabilizar coisas como o etanol, que é uma conquista do país - acrescentou.

Da oferta total de energia no Brasil em 2008, 36 por cento foi renovável e 64 por cento não-renovável, de acordo com estatísticas da British Petroleum.

Em comparação, no grupo de 30 países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), formado por países industrialmente avançados, 94,8 por cento da oferta total de energia no ano passado foi não-renovável e apenas 5,2 por cento renovável.

O etanol ultrapassou no ano passado a gasolina como combustível mais consumido por veículos leves no Brasil e hidrelétricas geram quase 80 por cento da eletricidade.

Usinas térmicas, movidas a combustíveis fósseis, têm sido acionadas ocasionalmente, quando o nível dos reservatórios caem.

Uma grande produção de petróleo das novas áreas e de derivados a partir das refinarias projetadas para serem construídas ainda levará anos, mas o governo e a Petrobras possuem um planejamento ambicioso para desenvolver o setor, o que preocupa defensores de tecnologias limpas.

- O Brasil não pode abandonar os esforços em energia limpa, seria errado concentrar recursos todos no pré-sal - afirmou Luiz Pingueli Rosa, diretor do Coppe, núcleo da Universidade do Rio de Janeiro que é referência em estudos na área de engenharia e energia no Brasil.

GOVERNO NEGA

Apesar da preocupação de especialistas do setor de energia com o possível crescimento na matriz brasileira de matérias-primas fósseis, grandes emissores na atmosfera de gases do efeito estufa, representantes do governo e da Petrobras têm negado que vá acontecer.

- O Brasil vai continuar investindo em fontes renováveis de energia apesar dos esforços no desenvolvimento do pré-sal - afirmou Almir Barbassa, diretor financeiro da Petrobras, em evento recente sobre a nova fronteira petrolífera.

- Não há competição com o etanol e eu não acho que o pré-sal vai sujar a matriz energética - acrescentou.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse há alguns dias em evento sobre biodiesel em Brasília que o Brasil não tem planos de abandonar a "posição de vanguarda" em áreas limpas como a dos biocombustíveis.

- Nossa próxima meta é desenvolver biocombustíveis de segunda e terceira geração. Nós vamos manter nossa matriz energética limpa.

Esse debate ganha combustível em um momento em que o Brasil sofre pressão na comunidade internacional sobre a questão da mudança climática.

Apesar de uma matriz relativamente limpa, o país emite milhões de toneladas de carbono anualmente com as queimadas em áreas de florestas.

Áreas de vegetação intensa funcionam como sumidouros de carbono, ou seja, sequestram da atmosfera o CO2, principal gás formador do efeito estufa. Mas quando as matas são derrubadas, o carbono sequestrado é liberado.

Marcos Jank, presidente da Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), além da defesa do etanol, também cobra empenho no desenvolvimento dos projetos de cogeração de energia por meio da queima do bagaço de cana.

- Nós temos duas Itaipus nos campos - afirma, sobre o potencial de geração de energia dos restos dos 600 milhões de toneladas de cana produzidos anualmente no Brasil.

- Seria um retrocesso para o Brasil, que tem uma matriz renovável, imaginar que vai para uma matriz baseada no petróleo. Acho que isso não está na cabeça de ninguém sério - acrescentou.