Primeiro museu do Brasil dentro de uma favela recebe mostra científica

Fernanda Prates, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A ciência está buscando uma aproximação maior com o povo. Pelo menos é que está acontecendo no Museu da Maré, o primeiro museu do Brasil a ser instalado dentro de uma favela. A instituição, que tem um acervo permanente que retrata o dia-a-dia da comunidade, está recebendo esta semana a mostra científica Caminhos do Passado, Mudanças no Futuro .

Iniciativas deste tipo são importantes pois trazem a possibilidade de acesso à informação de qualidade para uma população que não tem contato fácil com este tipo de conhecimento diz Ismar de Souza, do Departamento de Geologia da UFRJ, um dos organizadores da exposição, que tem parceria com a Casa da Ciência da UFRJ.

Adriana Vicente, produtora cultural da Casa de Ciência há 15 anos, acredita que esse tipo de exposição ajuda no sentido da popularização do conhecimento científico.

A mostra desperta interesse acerca das coisas da ciência. Ela permite que as pessoas da comunidade possam vislumbrar outras realidades, inclusive no âmbito profissional diz.

A mostra Caminhos do Passado, Mudanças no Futuro retrata as mudanças geológicas que ocorreram no território brasileiro nos últimos 150 milhões de anos. O visitante poderá atravessar uma floresta Jurássica, se deparar com crocodilos, fósseis e rochas. Haverá também oficinas, jogos e cursos.

Localizado logo na entrada do Complexo da Maré, num dos acessos à comunidade pela Avenida Brasil, o museu tem um acervo permanente formado, principalmente, por fotos, documentos e relatos da própria comunidade.

Criado a partir de uma parceira entre o Ministério da Cultura e o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm), o museu tem como proposta não só trazer exposições prontas, mas manter e ampliar um acervo construído a partir de contribuições dos moradores. O Museu da Maré busca valorizar a identidade do complexo.

Sabendo de sua história, o morador passa a se identificar com a realidade, e cria um vínculo com a comunidade, uma relação de pertencimento diz Luiz Antônio Oliveira, um dos idealizadores e diretores do Museu.

O Complexo da Maré tem mais de 130 mil habitantes, aproximadamente 16 comunidades e mais de 60 anos de existência. Mas só há três anos, graças a uma iniciativa de seus próprios moradores, a favela encontrou um meio para narrar sua extensa biografia com a criação do Museu da Maré. Essa participação, aliás, é essencial, pois o estabelecimento funciona em grande parte graças aos voluntários da Maré.

João Batista, de 22 anos, é um desses voluntários. Morador da comunidade desde os cinco anos, ele trabalha como coordenador educativo para as crianças há três anos, e diz ter sentido a diferença no local:

Antes as pessoas não sabiam que a favela tem história, agora elas têm uma identidade como moradores locais.

Mario Chagas, diretor do Departamento de Processos Museais do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) e um dos encorajadores do projeto, é um entusiasta do lugar:

Trata-se de um museu capaz de produzir impactos sociais e provocar o esgarçamento de fronteiras imaginárias diz.

O Museu fica na Avenida Guilherme Maxwell, 26: é só pegar a Avenida Brasil, sentido Centro-Zona Oeste e entrar na primeira à direita após o Quartel do Exército (CPOR), que fica na altura da passarela 7. A exposição fica em cartaz até 29 de novembro, de terça a sexta (das 9h às 20h) e aos sábados, domingos e feriados (de 10h às 18h). Todos os cariocas estão convidados.