Na Zona Oeste do Rio, Cedae usa detentos para reflorestamento

Carlos Braga, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Desde que foi povoado, o estado do Rio já perdeu 3.586.697 hectares de sua cobertura original de Mata Atlântica. Restam 18,38% dela. Se um trabalho de formiguinha tem destruído a floresta, um trabalho de mesmo tipo tem sido feito para recuperá-la. Um deles é tocado pela Cedae, que visa, principalmente, à recuperação das matas ciliares, que protegem os mananciais que abastecem o Rio. Como os que existem no rio Guandu e no município de Cachoeiras de Macacu. As mudas vêm de um centro de produção instalado na Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) de Alegria, no Caju, com capacidade para produzir 30 mil unidades por ano. Para se ter uma idéia, são necessárias cerca de 2.500 árvores pare reflorestar um hectare.

Queremos criar vários centros de produção de mudas. Vamos inaugurar, no dia 4 de julho, a incubadora de mudas da Mata Atlântica em Campo Grande, na Zona Oeste adiantou o presidente da Cedae Wagner Victer. Em breve também vamos inaugurar outros dois em São Gonçalo e Magé.

No mesmo local onde será inaugurado o centro de produção de mudas de Campo Grande, no Morro Luiz Barata, a Cedae também toca um projeto de reflorestamento. Devastado pela produção de café e laranja, o morro está recebendo espécies nativas produzidas no local. O trabalho é feito por funcionários da Cedae e por 35 presidiários regime semiaberto do projeto Replantando Vida, da Cedae. Da coleta da semente até que a árvore possa, digamos, viver por si mesma, demora quatro anos em média.

Vamos plantar de 50 a 60 mil árvores. Queremos também fazer uma trilha ecológica, que levará a um mirante no topo do morro. Aqui há poucas opções de lazer explica o gerente do projeto Alcione Duarte.

Nova profissão

Condenados por homicídio em sua maioria, os presidiários que trabalham no projeto passam por mais de mil horas de aulas na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Entre outras matérias, eles aprendem sobre paisagismo, leis ambientais e cidadania. Luiz Antônio Silveira, de 40 anos, passou pelo curso e trabalha há dois meses no programa. Ele contou que foi açougueiro e motorista de caminhão e jamais se imaginou cuidando de plantas. Hoje diz que quer seguir nesta profissão.

Gosto de fazer isso, parece que está no meu sangue. Gosto das plantas, de tratar a muda e de ver a árvore crescendo disse Silveira. Hoje me acho mais crítico. Até com quem joga lixo na rua.

Outro que também não se considerava uma pessoa que se importava com a natureza é o ex-PM José Geraldo dos Santos, de 45 anos. Ele se candidatou para participar do projeto, frequentou as aulas diz que, se puder, pretende seguir no ofício de agente de reflorestamento. E diz que passou o gosto para seu filho, que ganhou do pai uma muda que ele ajudou a desenvolver.

Ele plantou na casa da minha mãe em Araruama. A árvore já está grande. Toda hora ele liga para avó dele para saber como está a planta conta Santos, que garante hoje não ficar tão chateado quando chove.

Penso nas mudas que planto. Não suporto desperdício de água.