Mata Atlântica tem apenas 7% de sua vegetação original

Luciana Abade, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Na data em que se comemora o Dia Nacional da Mata Atlântica não há o que festejar. Entre 2005 e 2008, foram desmatados 102 mil hectares da floresta que ocupa 1,3 milhão de quilômetros quadrados do território nacional. Hoje restam apenas 7% de sua cobertura vegetal original. A área devastada corresponde a dois terços da cidade de São Paulo, ou 100 mil campos de futebol, e diz respeito a apenas 10 dos 17 estados que englobam a floresta. O número foi divulgado nesta terça-feira pela organização não-governamental SOS Mata Atlântica que, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulga a cada cinco anos o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica.

Os 7% de área original do bioma totalizam os fragmentos de floresta acima de 100 hectares. Dos 232.939 fragmentos florestais acima de três hectares, apenas 18.397 são maiores que 100 hectares. Se forem somados todos os fragmentos florestais acima de três hectares, a cobertura vegetal nativa sobe para 11%.

De acordo com o levantamento, os estados mais críticos são Minas Gerais, Santa Catarina e Bahia, que perderam nos últimos três anos, 32.728 hectares, 25.953 hectares e 24.148 hectares, respectivamente.

Em Minas Gerais, que já teve 46% do território ocupado pela floresta, restam apenas 9% . O desmatamento para a produção de carvão para as siderurgias é, segundo o diretor de Mobilização da SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani, um dos principais motivos do crescimento da devastação no estado. O coordenador do estudo pelo Inpe, Flávio Ponzoni, acredita que a agropecuária e a especulação imobiliária em Minas também contribuíram para o estado liderar a desonrosa lista.

Retrocesso

Em Santa Catarina a situação também é grave: o estado que está 100% inserido no bioma tem apenas 23% da floresta original.

Santa Catarina precisa começar a usar sua floresta como atrativo para o turismo afirma a coordenadora do Atlas, Marcia Hirota. E nosso próximo passo é descobrir para onde está indo esta madeira explorada.

Para Mantovani, os dados de Santa Catarina refletem uma desobediência civil que resultou na recente mudança do código florestal do estado completamente inconstitucional . Tanto Marcia quanto Mantovani apontam o desmonte da Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina (Fatma) como um fator decisivo para a aceleração do desmatamento na região.

Apesar de ter sido o estado que menos desmatou nos últimos três anos, entre os 10 estudados, a situação no Rio de Janeiro também não é confortável: nos últimos três anos foram devastados 1.039 hectares da floresta, mais que o dobro do que foi desmatado entre 2000 e 2005 (628 hectares).

No Rio, temos o que chamamos efeito formiga explica Marcia. É um pequeno desmatamento para a construção de um resort aqui, um empreendimento ali e pronto. O desmate está pipocando e acabando com a floresta do estado.

O Paraná saiu da lista dos três estados que mais desmatam a Mata Atlântica. Mas a situação, segundo Mantovani, ainda é grave porque há no estado uma cultura contra a Lei da Mata Atlântica. Muitos dos desmatamentos constatados pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) têm autorização do Instituto Ambiental do Paraná.

O Atlas divulgado mostra também os dados do desmatamento por município. Jequitinhonha (MG), Itaiópolis (SC) e Bom Jesus da Lapa (BA) lideram a lista com 2.459 hectares, 1.806 hectares e 1.797 hectares respectivamente.

O município de Ilhéus, que possui apenas 22% da cobertura original nativa, é uma preocupação da ONG porque a biodiversidade da área que vai do município até Itacaré é muito rica. São 346 espécies vegetais de porte arbórea por hectare.

Mais de 80% da área remanescente de Mata Atlântica estão localizados em propriedades privadas. Além de fiscalização, a preservação das mesmas vai depender do tipo de incentivos que os proprietários terão para manter a cobertura vegetal ou ampliá-la.

Não há muito motivo para nos tranquilizarmos afirma Posoni. Estou há 15 anos envolvido com esse projeto e infelizmente tenho visto o bioma ser reduzido dramaticamente desde então.