Especialistas discutem estudo que revelou o perigo nos comésticos

Joana Duarte, Jornal do Brasil

RIO - A dona-de-casa Jaílda Silva, 30 anos, nunca se preocupou com os produtos de banho que utiliza em Lorenzo, seu bebê de seis meses e 10 dias. Assim que ele nasceu, o pediatra indicou diversos cosméticos da Johnson & Johnson, considerados os melhores do mercado. Desde então, Lorenzo toma banhos diários com os xampus e sabonetes líquidos recomendados, que, segundo Jaílda, não irritam os olhos ou a pele do bebê, e portanto nunca a preocuparam. Isto é, até esta segunda-feira, quando uma pesquisa divulgada pelo JB mudou sua postura.

Apesar das indicações de que certos cosméticos para bebês são extra suaves ou puros , dezenas de xampus, sabonetes líquidos, loções e outros produtos de banho específicos para crianças e comercializados mundialmente, inclusive no Brasil, contêm vestígios de duas substâncias químicas consideradas cancerígenas: o formaldeído e o 1, 4 dioxano.

Nunca imaginei que pudesse estar prejudicando meu filho com um produto recomendado disse Jaílda. Da próxima vez que for ao pediatra, vou levar esse relatório.

A denúncia foi feita pela Campanha Cosméticos Seguros, um grupo de defesa da saúde sediado nos EUA. Segundo o grupo, os elementos químicos encontrados nos produtos não são identificados nos rótulos, porque não são adicionados como ingredientes, mas originados de reações químicas que ocorrem durante o processo de fabricação.

Este estudo é o primeiro a documentar a presença generalizada de ambos formaldeído e 1,4-dioxano em produtos de banho para crianças. A Campanha Cosméticos Seguros contratou um laboratório independente para testar a presença de 1,4 dioxano em 48 produtos e de formaldeído em 28. Segundo o relatório do grupo, 17 dos 28 produtos testados o equivalente a 61% contêm vestígios de ambos os elementos considerados cancerígenos. Vinte e três entre 28 produtos ou 82% contêm formaldeído em níveis de 54 a 610 partes por milhão. Trinta e dois entre 48 produtos 67% contêm 1,4 dioxano em níveis de 0,27 a 35 partes por milhão.

Nossa posição é pela proibição total, para que nenhum produto para bebês possa conter o menor vestígio da presença dessas substâncias químicas nocivas afirmou Stacey Malkan, fundadora da Campanha Cosméticos Seguros e co-autora do estudo americano No more toxic tub: getting contaminants out of children's bath products.

Algumas empresas já estão utilizando conservantes diferentes que não geram as substâncias cancerígenas. Infelizmente, a Food and Drug Administration (FDA) ainda não determinou um padrão para o uso seguro desses produtos nos EUA.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil, as substâncias são permitidas mas há limites rigorosos. O formaldeído, por exemplo, pode estar presente até o limite máximo de 0,1% em produtos de higiene oral e até 0,2% em outros.

Franklin David Rumjanek, coordenador do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, explica que substâncias cancerígenas têm efeito cumulativo e vão aumentando o risco de mutações que as células do corpo humano não conseguirão corrigir, podendo se transformar em tumores.

Conheço ambas as substâncias e posso afirmar que, em certos níveis, são consideradas cancerígenas explica Rumjanek. O melhor seria que os produtos não tivessem os elementos.

Em comunicado ao JB, a empresa Johnson & Johnson garantiu que utiliza altos padrões de qualidade para testar e validar cada ingrediente usado em seus produtos.

Nós estamos desapontados com a Campanha para Cosméticos Seguros, que caracterizou de forma não acurada a segurança dos nossos produtos, indo contra o forte consenso de cientistas e de agências governamentais, que analisam a segurança dos ingredientes, e desnecessariamente alarmando os pais , diz o comunicado.