Geógrafos ganham a vida fazendo mapas para aparelhos GPS e celulares

Cristine Gerk, Jornal do Brasil

RIO - Quem pensa que por trás de todos aqueles pontos coloridos, setas e coordenadas demonstrados nas telas de celulares e de aparelhos GPS estão a mão e o olho humanos, e não apenas mensagens espaciais de satélites e softwares mágicos que identificam o melhor caminho? Antena em cima do carro, laptop na mão, a velha bússola substituída por um radar avançado. Os grandes Cabrais, Colombos e Magalhães de hoje perderam a pompa e a fama desbravadora dos navegadores de antigamente. São anônimos. Joãos, Robertos e Marias que exploram as ruas do mundo diariamente em cada detalhe, para elaborar mapas precisos que cheguem completos nos aparatos tecnológicos do planeta.

Danilo Kulif, analista geográfico da Navteq, empresa responsável pela elaboração de mapas de navegação, é um desses anônimos. Com uma câmera no pára-brisa de sua van e uma caneta especial para escrever em telas de computadores, ele anota cada posto de gasolina, as mãos das vias, as interrupções no caminho, registra as velocidades e como é o tráfego em cada região:

Eu adoro a minha profissão porque conheço a fundo vários lugares. Sou um mapa humano brinca. Vivemos a rotina de cada cidade. No Rio, tivemos de fugir de tiroteio para mapear o túnel Santa Bárbara. E muitas vezes a gente se perde no meio do caminho e tem de usar nosso próprio GPS para voltar ao ponto de partida.

O ponto de partida dos mapas feitos por Danilo são as imagens de satélite, que ele compara a fotos com diferentes pixels: umas vêm com resolução boa, outras todas borradas . Comprovando o jargão não se pode sempre confiar na tecnologia , há muitas informações erradas ou incompletas nas imagens espaciais. Empresas especializadas mandam correções automáticas para o rascunho de Danilo, com a ajuda de dados de prefeituras. Mas, mesmo assim, as ruas são organismos vivos , ele ressalta, e tudo está mudando a cada segundo .

A câmera no pára-brisa da van filma todos os trajetos e tira fotos a cada cinco metros para que os analistas possam sanar dúvidas posteriores. Há alguns ícones já pré-preparados para inserir os atributos , ou seja, as informações importantes para formar um bom mapa. Do banco de trás do carro, vejo Danilo olhando atento para as calçadas e marcando no esboço de mapa onde há duas faixas, é proibido o retorno, aparece um canteiro no meio. Informações sobre áreas de bases secretas de governos não são incluídas. Se o atributo não tiver um ícone já preparado, Danilo desenha com uma pen tablet direto no computador.

Destaco os pontos que acho de interesse, como postos de gasolina, de polícia, farmácias, restaurantes, hotéis, bancos. Penso o que seria importante para mim se eu fosse um turista naquele lugar explica. Quando há dúvida, voltamos e vemos tudo de novo.

Há uma hierarquização das ruas, divididas em cinco classes, de acordo com o movimento e a sua relevância. As mesmas informações são coletadas em todas as vias, mas aquelas com classe 1 ou 2 costumam ter mais atributos que as demais. Um segmento de rua, como uma quadra por exemplo, pode ter até 260 atributos. Cada dado inserido por Danilo é identificado pelo sistema na coordenada exata onde se encontra o carro.

Em caso de condomínios e favelas, usamos atributos para mostrar que são áreas de baixa mobilidade , ou áreas para destino, e não passagem conta. Eu só acredito no que eu vejo. Não pergunto informações para pedestres. Se não tem placa oficial ou nada visível, omito a informação.

Para decidir qual o melhor caminho, o software avalia todas as possibilidades de A para B e pondera os atributos inseridos por Danilo, do tipo a classe funcional da via, a velocidade média, se tem restrições etc. O geógrafo conta que um dos locais mais difíceis de mapear no Brasil foi, ironicamente, a cidade melhor planejada do país: Brasília.

Não há nomes de ruas, só de quadras, é difícil localizar os lugares desabafa. Agora estamos começando a mapear Manaus. São três semanas para mapear tudo, circulando oito horas por dia.

Um desafio, porém, ainda não foi superado pela tecnologia depois de todas as décadas que separam Danilo de Pedro Álvares Cabral: o enjôo do balanço na viagem:

É difícil ficar escrevendo e vendo mapa enquanto ando de van justifica.

A cada dia, 100 milhões de pessoas usam mapas da Navteq de alguma forma. São mais de 80 mil fontes de mapas diferentes, como de prefeituras e coletas locais.

As fontes têm limitações. É preciso ter times de campo dirigindo e verificando tudo. São 4 mil funcionários em 196 escritórios de 43 países, com o modelo da especificação única, ou seja, quando um mapa é elaborado, ele vale para o mundo todo explica Helder Azevedo, diretor geral para a América Latina da Navteq.

As ruas mudam de mão, prédios são construídos, temos de atualizar tudo sempre. É preciso ter conhecimento da legislação local e sempre recebemos ajuda também das nossas comunidades virtuais, onde internautas dão dicas para melhorar os mapas. Já são quase 1.200 cidades brasileiras mapeadas.

A infra-estrutura da empresa inclui mais de 700 analistas geográficos e competência exclusiva de coleta e validação de dados. Em outubro de 2007, a Nokia anunciou a aquisição da Navteq pelo valor de US$ 8,1 bilhões a maior aquisição já feita pela empresa.