Ano de 2008 marcou a ascensão de Wii e Flip

Jornal do Brasil

ESTADOS UNIDOS - O Escritório Nacional de Pesquisa Econômica não assustou a nação este mês quando anunciou que os EUA estavam em recessão desde dezembro de 2007. E os compradores de eletrônicos podem muito bem ser o principal indicador econômico. Em 2008, preferiram comprar dois produtos simples e baratos, Wii e Flip, em detrimento dos concorrentes mais elaborados.

A Nintendo vendeu mais de 30 milhões de consoles Wii desde que foram lançados dois anos atrás. O aparelho ainda atrai os consumidores: filas ainda se formam nos domingos de manhã do lado de fora das lojas de eletrônicos. A Best Buy colocou o Wii, e não TVs de telas grandes com alta definição, na primeira página de seus encartes dominicais na semana passada, numa tentativa de levar consumidores resistentes às lojas.

O aparelho é bastante simples. O console não é maior que um DVD. O videogame carece dos ricos gráficos, do som estrondoso e dos jogos violentos do Microsoft Xbox 360. Mas, com o preço de US$ 250, vende quase duas vezes mais que o Xbox 360 e o Sony PlayStation 3 juntos (mais caros). A câmera de vídeo Flip de US$ 130 também é simples, e duas ou três vezes mais barata do que as câmeras Sony ou JVC que têm zoom, foco automático e efeitos especiais.

A Flip original nem mesmo tinha entrada para fones de ouvido. A receita da fabricante Pure Digital Technologies cresceu 44, 7%, taxa mais alta do que de qualquer empresa no Vale do Silício nos últimos cinco anos, de acordo com Deloitte. A Pure Digital Technologies vendeu mais de 1,5 milhão de Flips desde que lançou a linha de produtos em 2007.

A preferência do consumidor por aparelhos eletrônicos mais baratos poderia ser uma reação à recessão. Mas os consumidores acham os aparelhos simples, atrativos e gostam do fato de não exigirem manuais de instruções. A mudança da preferência dos consumidores pode ser fatal. À medida que os EUA entrarem em deflação, todas as empresas terão de lidar com as consequências da queda dos preços. Isso não é novidade para os fabricantes de eletrônicos: todo ano, a competição e o aumento do processamento dos chips derrubam os preços.

A única estratégia de defesa que parecia funcionar era oferecer um novo produto com o mesmo preço que o antigo, mas com mais recursos. Os laptops ganharam gráficos melhores, os discos rígidos rodam mais rapidamente, as câmeras captam mais detalhes, os cartões de memória armazenam mais dados. Melhorias tecnológicas viraram uma obsessão. Mas qualquer coisa era melhor do que o tédio do consumidor.

Até o Flip pegou a febre por incremento tecnológico: tem um modelo popular que grava vídeo de alta definição. Ainda é a menor câmera de vídeo em alta definição, mas tem baterias e adaptadores com cabo USB, adianta e rebobina e tem quatro vezes mais memória do que o original. O Wii também é voltado para o mercado que a Microsoft e a Sony negligenciaram: crianças, pessoas mais velhas e outros que nunca jogaram videogames. Mas está vendendo produtos extras como o Wii Fit, que permite desfrutar de jogos de esqui, competições de equilíbrio e musicais.

A Apple, responsável pela inovação tanto de modelos de negócios quanto de apetrechos eletrônicos, pode ter encontrado uma solução. O iPhone da Apple é um dos aparelhos mais fáceis de usar já criados. A US$ 300, mais um contrato de dois anos que eleva o preço real para US$ 1.800, dificilmente cairá no gosto popular como o Wii e Flip. Mas é um dos eletrônicos mais populares de 2008. A Apple deve vender mais de 14 milhões deles este ano, e o telefone já é o aparelho de mão mais vendido nos EUA, de acordo com pesquisadores de mercado do NPD Group.

Assim como adere à tendência de simplificar, o iPhone também é bonito, com uma tela em que se pode tocar, dispensando o teclado. E é também uma máquina de jogos que cabe na palma da mão e um instrumento musical que toca sinos de vaca ou imita uma ocarina. É um aparelho para entretenimento, que pode identificar a música que toca num filme ou encontrar amigos num mapa.

Algumas empresas novatas exploram os recursos das bugigangas. Uma delas, a Sonos, transformou o iPhone num belo controle remoto para administrar música no sistema de entretenimento doméstico da Sono. (O aplicativo pode ser baixado grátis na AppleStore da Apple.) O iPhone se conecta à rede wireless da casa para controlar o sistema de entretenimento wireless em vários ambientes.

John MacFarlane, executivo-chefe do Sonos, diz que a criação do software que torna o iPhone um controle da Sonos alavancou as vendas da empresa em 20 % em novembro. Nessa economia, frisou. A empresa abriu mão de alguma receita (um controle regular da Sonos custa cerca de US$ 300), mas o novo aparelho expôs o sistema de entretenimento a um novo público e, consequentemente, expandiu o mercado. A Sonos não está interessada em nada além de música, mas um pequeno aparelho versátil que você nunca deixa fora de seu alcance poderia também funcionar em alarmes e sistemas de aquecimento e resfriamento.

Acho que é o controle remoto universal do futuro observa MacFarland. E essa é a direção em que estamos indo.

Indo junto com um tipo de consumidor mais pão-duro.