Software traduz a 'fala' dos bichos

Joana Duarte, Jornal do Brasil

RIO - Há tempos, a professora Daniella Moura e sua equipe de pesquisadores da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ouviam dos produtores de animais que existe uma correlação entre o som emitido pelos suínos, bovinos e aves e o estado em que eles se encontram.

Pintinhos quando sentem frio piam de maneira diferenciada de quando estão em conforto indicou Daniella. Porcas em lactação também chamam seus leitões para serem amamentados com grunhido distinto.

A partir desta idéia, a equipe da Feagri desenvolveu um software para interpretar o idioma dos bichos, identificando se estão com fome, sede, cio, medo ou algum grau de estresse.

Avaliamos que não só existe uma comunicação entre espécies, mas uma vocalização para cada situação explica Daniella.

O resultado da pesquisa, o software Vocalização, é uma ferramenta que comprova se os animais estão, durante toda sua fase de criação, em bem-estar.

Quem exporta carne de suínos, bovinos ou aves precisa garantir a qualidade da carne observa Daniella. A comprovação do bem-estar do animal em vida é uma das garantias desta qualidade.

Segundo a pesquisadora, hoje em dia, é muito mais comum que países importadores de carne brasileira procurem saber como esta é produzida, exigindo comprovante de bons tratos.

Até cinco anos atrás, este assunto era pouco discutido nos Estados Unidos, grande consumidor e produtor de carne. Hoje, o McDonald´s e a maioria das cadeias de fast food mantêm equipes especializadas no tema conta Irenilza.

Segundo a professora, as maiores importadoras de carne brasileira visam a atender a demanda de um público que, embora coma carne, condena o sofrimento do animal durante o processo.

Daniella conta que as primeiras pesquisas foram simples: a equipe procurou comparar situações que geram estresse e dor, como por exemplo a castração, com períodos de bem-estar. A equipe percebeu que além de haver diferentes vocalizações para cada distúrbio orgânico vivido pelos animais, era possível também diferenciar entre os níveis de estresse e outros abalos emocionais.

Em quatro anos de pesquisas envolvendo grupos de estudantes em vários projetos, a equipe conseguiu arquivar um vasto banco de dados com milhares de vocalizações.

Uma vez compreendidos os princípios básicos do animalês, a equipe buscou fundamentação científica para suas teses em modelagens matemáticas.

A equipe gravou os sons de aves, bovinos e suínos, expandindo depois o espectro do som para verificar variações. Deste modo, puderam perceber diferenças de espectro para diferentes situações.

- Há efetivamente uma comunicação entre os animais, o espectro mostra falas que variam conforme a situação garante Irenilz de Alencar Nass, uma das coordenadoras da pesquisa.

Daniella já adianta que pretende utilizar a técnica do software para traduzir a fala de outros animais, como os domésticos.

Criamos o software pensando nos produtores agrícolas, mas já estou em negociação com um canil para desenvolver um protótipo que traduz latidos revela.

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