A difícil passagem pela infância

Cecilia Minner, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Seja por um desenho, uma forma de brincadeira ou uma música, a criança pode dar sinais de que passa por algum problema psicológico ou psiquiátrico, na maioria das vezes ignorado pelos pais. Preocupados com esta falta de informação, especialistas tentam cada vez mais informar aos parentes sobre transtornos comuns da infância. Entre os pequenos na fase pré-escolar de 3 a 5 anos - 10% são acometidos por dificuldades como ansiedade, hiperatividade, depressão, autismo e bipolaridade. E quanto mais precocemente forem tratados, menor é o risco de futuras complicações escolares e da criança se tornar um adulto problemático, ou até delinqüente.

O tema vem ganhando cada vez mais destaque. Prova disso é que pela primeira vez os distúrbios em crianças em idade pré-escolar foram discutidos no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que teve sua 26ª edição semana passada em Brasília. De complexo diagnóstico, os transtornos psiquiátricos nessa idade são muito confundidos com doenças clínicas. Por exemplo, a depressão pode ser resumida apenas a dor de cabeça, dor abdominal, insônia e falta de apetite. Além disso, os sintomas podem ser vistos como fatores normais do desenvolvimento da criança. Por isso é importante que os pais estejam atentos a comportamentos atípicos e persistentes.

O transtorno da ansiedade é comumente caracterizado pela angústia de separação: as crianças não querem ficar longe dos pais por temerem que algo de ruim aconteça com eles.

Um fator influente é a violência. As crianças estão muito expostas a essa mazela: assistem na televisão notícias de crime, e acham que o mesmo vai acontecer com os pais explica o psiquiatra Fabio Barbirato.

Um dos transtornos mais comuns é o distúrbio de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), que tem uma prevalência de 2% a 6% em crianças na fase pré-escolar. Os sintomas são inquietação, brincadeira destrutiva, atraso no desenvolvimento motor ou na linguagem e birra excessiva. Quando o TDAH persiste na fase escolar, a criança tem grande probabilidade de apresentar dificuldades em matemática, leitura e habilidades motoras finas.

Já a depressão, que acomete 0,9% dos pequenos, pode apresentar-se tanto por uma agitação excessiva, quanto por uma inibição. Além de muito choro, grito e alteração no sono e apetite.

Os bebês e crianças ficam tristes momentaneamente, mas se a tristeza persistir por mais de duas semanas, pode-se desconfiar de depressão alerta a pediatra Maria Cristina Senna.

Um quadro mais grave como o de autismo pode ser percebido pela falta de reação da criança. Ela não interage com as pessoas, não apresenta expressão de alegria, não fala e têm tendência a se isolar. Costuma também andar na ponta dos pés.

Meu filho antes de um ano de idade falava pai e mãe, depois ele regrediu e passou a não falar nem isso. Ficava muito tempo com um brinquedo só e não interagia com outras crianças. A gente o chamava mas ele não olhava. Pensei até ele que estava surdo, mas quando tocava uma música que gostava, ele reagia explica Eloah Antunes, mãe de Luan de 6 anos, que sofre de autismo.

A bipolaridade é a variação de humor repentina e acentuada. A criança pode estar muito bem de manhã e à tarde estar com a cara fechada. Na fase pré-escolar, os bipolares costumam ser explosivos e irritados, têm alteração no sono e aumento excessivo de energia.

No entanto, o distúrbio é difícil de ser notado por uma pessoa distante, que pouco convive com o pequeno.

Não se pode falar em bipolaridade sem conhecer bem a criança e os pais. Desconfie de diagnósticos rápidos acrescenta o psiquiatra César de Moraes.

Cerca de 70% das crianças que sofrem de transtorno psiquiátrico apresentam mais de um distúrbio, segundo Barbirato, que defende a intervenção psiquiátrica precoce a fim de evitar uma vida adulta perturba.

Em torno de 70% dos adultos com transtornos tiveram o início da doença na infância justifica Barbirato.

No entanto, existe ainda uma forte resistência por parte dos pais em assumir que seu filho precisa de um psiquiatra.

Os filhos são o reflexo dos pais, então eles esperam que a criança seja ótima. É muito difícil aceitar a doença e bater na porta de um especialista avalia a psiquiatra Martha Carneiro.