Médicos lamentam retirada de Uip

Jornal do Brasil

SÃO PAULO - A Academia Nacional de Medicina, instituição centenária de representação máxima das ciências médicas no Brasil, deixará de ter um dos mais conceituados médicos do país, o infectologista David Uip.

Há algumas semanas, sem especificar motivos, Uip renunciou à candidatura à vaga na Academia. Segundo informações da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, na semana passada, Uip, que é professor da Universidade de São Paulo (USP), diretor-presidente da Fundação Zerbini e diretor-executivo do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da USP, teria batido em retirada por ter identificado a existência de um esquema de cartas marcadas , acertos políticos pelos quais ele não seria eleito por ser de São Paulo quase 70 dos médicos da Academia são do Rio de Janeiro.

Os efeitos da decisão do infectologista repercutiram. O presidente da Academia, Marcos Moraes, que também preside a Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica, resolveu destituir a comissão julgadora dos títulos, trabalhos e memórias dos candidatos e apurar todo o processo. Ainda assim, Uip não voltou atrás.

Silvano Raia, pioneiro nos transplantes de órgãos, sugere uma adaptação do estatuto da Academia, que data de 1829 quando a cultura médica brasileira era centrada no Rio numa tentativa de equalizar as diferenças de representatividade geográfica. Para ele, as modificações ocorridas no cenário nacional impõem ajustes, tais como: ao atingir os 75 anos de idade, os membros titulares passam a ser membros eméritos; eleição de novos acadêmicos por correspondência (secreta); e que o preenchimento das vagas, inclusive as decorrentes da transferência para membro emérito, obedeça a um critério regional a ser estabelecido.

Para o médico Glaciomar Machado, presidente honorário da Sociedade Mundial de Endoscopia Digestiva e membro da Academia, a retirada do nome de Uip das eleições representa uma perda para a entidade:

- Ele é um líder e tem contribuído sobremaneira, no Brasil e no exterior, para com as causas das ciências médicas. Em Angola, país com problemas de saúde pública relacionados à pobreza, tem realizado um trabalho de excelência e é reconhecido por sua competência e caráter humanista.

Outro médico referência na comunidade mundial, o cirurgião plástico Ivo Pitanguy também lamenta a retirada do nome de Uip:

- É uma pena. Uip é um homem de grande prestígio, um forte candidato, com muito mérito.

A mesma sensação de perda é dividida com outro colega de profissão, o ortopedista Carlos Giesta, professor emérito da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ), que classifica a exclusão de Uip como irregular e injusta e que priva a Academia de ter um expoente.

- David Uip é um expoente da medicina brasileira. É um homem de grande prestígio pessoal.

O cirurgião gastroenterologista Raul Cutait, presidente do Conselho Médico e diretor-geral do Centro de Oncologia do Hospital Sírio Libanês, foi um dos incentivadores para que Uip se candidatasse à vaga na Academia.

- Ele é um dos mais conceituados infectologistas do país. Com importante atividade acadêmica, é empreendedor e tem realizado um excepcional trabalho para o controle da Aids em Angola, com resultados que merecem a atenção da comunidade política e científica.

Na mesma linha, Angelita Habr-Gama, da Faculdade de Medicina da USP, uma das principais autoridades em cirurgia do aparelho digestivo, considera Uip um líder com relações articuladas nas classes médica, política e empresarial.

- Eu o indicaria de olhos fechados afirma.

E ressalta: com suas contribuições no continente africano, o infectologista tem ajudado a inserir a medicina brasileira no exterior.

- Uip tem reconhecido valor científico, associativo e de atendimento a doentes. Do ponto de vista do mérito, está altamente habilitado à vaga defende.

História

Fundada em 1829, durante o Primeiro Reinado, sob as direções do médico Joaquim Cândido Soares de Meirelles, a Academia Nacional de Medicina sempre atuou com excelência nos momentos mais importantes relativos à saúde pública no Brasil desde a consolidação das práticas pedagógicas do ensino médico até os recentes pareceres expedidos acerca das pesquisas em célula-tronco embrionária. A entidade se propõe a promover e debater a ciência médica, congregar profissionais de excelência e auxiliar em questões de saúde pública. É uma organização sem fins lucrativos, com título de utilidade pública e não recolhe tributos aos cofres dos governos. É uma entidade de classe de representação nacional.

No entanto, o incidente envolvendo David Uip, que recebeu respaldo da classe médica, mostra que agora é uma hora oportuna para reavaliação de critérios.