Ciência: fórmula da longevidade é testada

Jornal do Brasil

RIO - Drogas que medem reflexo da fome garantiriam dieta com 30% menos calorias, o que prolonga vida

A empresa Sirtris, recém-adquirida pela gigante do setor farmacêutico GlaxoSmithKline, vem desenvolvendo medicamentos capazes de prolongar a vida humana. Os novos remédios são conhecidos como acionadores de sirtuin , enzimas que medem o reflexo da fome.

A teoria básica é que todas (ou quase todas) as espécies têm uma estratégia antiga para superar os períodos de fome: transferir recursos da reprodução à manutenção de tecidos. Uma dieta saudável, com 30% menos calorias do que o usual, deflagra essa reação em ratos cobaias e é uma intervenção que pode confiavelmente torná-los mais longevos.

Mas a maioria das pessoas não seria capaz de manter uma dieta com corte de 30% de calorias, de modo que um remédio que ative o reflexo da fome poderia ser altamente desejável.

O biólogo que iniciou os estudos com o sirtrum foi Leonard Guarente, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Um antigo aluno seu, Sinclair, descobriu que o sirtuin pode ser ativado por medicamentos. A mais poderosa das drogas que surgiu a partir de sua avaliação foi o resveratrol, uma substância natural encontrada no vinho tinto, ainda que em quantidades pequenas demais para beneficiar a saúde de maneira significativa.

Contra diabetes

Um dos remédios da Sirtris está sendo experimentado no combate à diabete tipo 2, uma das doenças do envelhecimento. Mesmo que haja sucesso quanto a apenas uma dessas doenças, o impacto sobre a saúde poderia ser uma transformação , afirmou o médico Patrick Vallance, diretor de pesquisa de medicamentos na GlaxoSmithKline.

O remédio contra diabetes é uma formulação especial do resveratrol que gera na corrente sangüínea uma dosagem cinco vezes mais alta do que a do produto isolado. Conhecido como SRT501, o remédio, em testes de pequena escala, reduziu os níveis de glicose dos pacientes.

Outro medicamento é um pequeno produto químico sintético mais poderoso que o resveratrol no que tange a ativar o sirtuin, e que pode ser administrado em dose muito menor. Os testes de segurança em seres humanos já começaram e até agora não tiveram efeitos adversos.

A esperança é a de que ativar o sirtuin nas pessoas ajudaria a evitar doenças degenerativas trazidas pela idade, como a diabetes, problemas cardíacos, câncer e Mal de Alzheimer da mesma forma que a dieta de restrição calórica faz com os ratos de laboratório.

Não existe categoria específica na agência americana que regula alimentos e remédios, FDA, para medicamentos que promovam maior longevidade, de modo que se a empresa submeter o produto a aprovação, terá de propô-lo como uma forma de combater uma doença específica. Mas foi a longevidade que motivou os pesquisadores.

Christopher Westphal, presidente-executivo da Sirtris, disse, sobre o potencial dos remédios, que se estivermos certos, eles poderiam estender a longevidade em 5% a 10% . E acrescentou que seu objetivo era desenvolver remédios contra doenças específicas, com a extensão da vida surgindo quase como um efeito colateral do remédio .

O impacto dos remédios da Sirtris, se eles obtiverem sucesso, poderia se estender além do setor de remédios. Guarente acredita que muita gente poderia começar a usá-los ao chegar à meia-idade, ainda que depois de terem tido filhos, porque eles podem afetar adversamente a fertilidade.

Fórmula

A GlaxoSmithKline poderia colocar o SRT501, sua fórmula de resveratrol, no mercado vendendo-o como composto natural e de nutrição, o que não requereria aprovação pela FDA.

Não tomamos essa decisão, mas é uma opção concluiu Vallance.