Estudo mostra que energia no Brasil é vulnerável a aquecimento

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RIO - Patinho feio dos leilões de energia até agora, o bagaço de cana poderá ganhar status de estrela na geração de energia no final deste século, já que a cana-de-açúcar será a única fonte energética no Brasil que não sofrerá impactos com o aquecimento global.

Por outro lado, a energia eólica deve ficar restrita ao litoral e as hidrelétricas vão produzir menos do que hoje por redução das chuvas, assim como a soja deverá migrar para o Sul em busca de clima mais favorável.

Estas e outras conclusões estão no estudo encomendado pelo Reino Unido através do Global Opportunity Fund a professores e pesquisadores da Coppe, instituto de pós-graduação e pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, liderados por Roberto Schaeffer e Alexandre Salem Szklo, para avaliar o impacto das mudanças climáticas no sistema energético brasileiro no período 2071 a 2100.

- Trata-se basicamente de entender como o sistema energético brasileiro planejado para 2030 reagiria às novas condições climáticas projetadas para o período que vai de 2071 a 2100 - explica em sua introdução o trabalho que levou oito meses para ficar pronto.

A vulnerabilidade encontrada, segundo Roberto Schaeffer, acende uma luz amarela em alguns programas do governo e investimentos privados, que deveriam ser repensados.

-O que o estudo chama a atenção é de que não adianta pensar mais em desenvolvimento do Brasil ou apostar fundo em certas regiões se você não começar a olhar a vulnerabilidade delas às mudanças climáticas, pode ser maior ou menor, mas provavelmente o futuro será pior do que hoje - explicou Roberto Schaeffer à Reuters.

Ele citou projetos hidrelétricos na Amazônia, que estão sendo apontados como a solução para o país -rio Madeira, Belo Monte- como exemplo de uma possível frustração futura diante das mudanças climáticas.

- Há tendência da Amazônia savanizar, ou seja, ficar mais seca, e o Nordeste que já é semi-árido vai ficar mais árido - afirmou.

Nem os ventos escapam das mudanças no clima, segundo o estudo, apontando para uma tendência de migração da produção eólica do interior para o litoral, limitando o crescimento dessa indústria.

- O Brasil tem potencial eólico muito grande, mas muito disperso. A gente mostra (no estudo) que esse potencial grande acaba e fica muito concentrado na costa, vamos ter ventos 30 a 60 por cento menores do que temos hoje -informou.

Outro problema será enfrentado pelas culturas de soja e outras oleaginosas usadas para a produção de biodiesel, que terão que buscar o Sul do país se quiserem continuar existindo.

- Um programa de biodiesel, por exemplo, que era pensado em questões familiares, pequenas propriedades, é uma questão que não dá para assinar em baixo ainda, mas a vulnerabilidade é muito grande e os estudos estão apontando que dendê, soja, mamona etc não vão nascer no Nordeste - afirmou.

Já a cana ganharia mais áreas para ser plantada, por gostar de calor, e o bagaço, hoje praticamente desprezado para gerar energia, poderia compensar as perdas hidrelétricas.

- O bagaço pode assumir um papel importante que ele não tem hoje - afirmou.

Velho Chico

Com menos chuvas devido ao aquecimento do planeta, a transposição do rio São Francisco também pode ser considerado um projeto arriscado pela tendência de queda hidrológica.

- Em todas as bacias hidroelétricas brasileiras sempre a geração de eletricidade vai ficar pior e com o passar do tempo não vai melhorar - disse Schaeffer. - O Nordeste que hoje já é pobre em chuva vai ficar mais pobre, e a Amazônia que hoje é rica em chuva vai ficar mais seca, o que vai ser favorável para algumas culturas de um lado, mas vai reduzir a produção das hidrelétricas -complementou.

Em cálculos conservadores, que serão revistos ao longo dos próximos 12 meses em uma versão mais sofisticada do estudo pelo próprio grupo, a bacia do São Francisco é a que apresenta maior queda de vazão média anual, ou seja, a que terá menos água para mandar para suas usinas.

A vazão da bacia do São Francisco registraria queda de 23,4 por cento no cenário mais otimista e de 26,4 por cento no mais pessimista, enquanto na bacia do rio Paraná as previsões de queda ficam em 2,4 e 8,2 por cento, respectivamente.

Se confirmadas as quedas, o total da energia média gerada pelas hidrelétricas brasileiras cairia 1 por cento no cenário otimista e 2,2 por cento no mais pessimista.

- A gente sabe que o número é muito conservador...mas o modelo trabalha com médias, e por isso é melhor não se fixar em número, mas a tendência é de que vai piorar, o que faz com que estudos mais sofisticados sejam feitos para saber o quanto vai piorar - disse o acadêmico.

Ele explicou que na próxima fase do estudo já deverá contar com uma avaliação de quanto custa para tentar minimizar o impacto climático na economia e quanto custa não fazer nada.

- Esse estudo mostra que nada é um assunto fechado, que tudo tem que ser melhor estudado, e como o Brasil depende muito de fontes renováveis de energia a vulnerabilidade é maior e por isso mais uma razão para o Brasil começar a se precocupar com isso - finalizou.