Cresce importância dos cabelos na investigação criminal, diz estudo

Agência EFE

WASHINGTON - O cabelo registra o local onde uma pessoa bebeu água e o dado já é usado para rastrear movimentos de um criminoso ou os de uma vítima de assassinato, segundo um estudo divulgado hoje pela revista 'Proceedings of the National Academy of Sciences'.

As perícias legais do cabelo de uma pessoa também poderiam ser úteis para os antropólogos, os arqueólogos e os médicos, além da polícia, revelou o relatório do trabalho elaborado por cientistas da Universidade de Utah.

- A pessoa é o que come e bebe, e isso fica registrado no cabelo - disse o geoquímico Thure Cerling, que realizou a pesquisa junto ao biólogo Jim Ehleringer.

Segundo Ehleringer, o grupo descobriu variações importantes nos isótopos de hidrogênio e oxigênio no cabelo e na água, os quais têm a ver diretamente com o local onde a pessoa mora nos Estados Unidos.

- A polícia já está utilizando (o cabelo) para reconstruir a procedência de uma vítima de homicídio - ressaltou. Os isótopos são formas de um elemento químico que se diferenciam só por seu peso atômico.

Os isótopos de hidrogênio e oxigênio de água (H2O) variam conforme a temperatura das nuvens, a temporada da precipitação pluvial e a quantidade de água que evapora do solo e das plantas, além de outras condições típicas do local onde se encontra.

Segundo os cientistas, isto explica o porquê de os níveis de isótopos de oxigênio-18 e hidrogênio-2 na água serem menores em quantidade no litoral oeste dos Estados Unidos, onde os invernos são frios, e serem altos na região do Golfo do México e na costa atlântica, onde a temperatura das nuvens é mais alta.

- A água potável de uma região tem um registro que se concretiza no cabelo e não se modifica com outros líquidos que são ingeridos, pois "uma parte importante da cerveja, dos refrigerantes e do leite tem origem local - ressaltou Ehleringer.

Em seu estudo, os cientistas analisaram amostras de cabelo de uma pessoa que chegou a Salt Lake City procedente de Pequim. Seu cabelo nos últimos três meses revelou um alto conteúdo dos isótopos de oxigênio-18 e hidrogênio-2, o que refletiu sua alta concentração na capital chinesa.

Mais perto da pele, ou seja, no cabelo que cresceu desde que chegou a Utah, a concentração desses isótopos se reduziu de maneira considerável, no que se ajusta às características de água potável da cidade do estado americano.

Os cientistas acreditam que a polícia poderia usar esta técnica para investigar o álibi de um suposto criminoso que afirma não ter estado na região onde ocorreu o delito do qual é acusado.

Ehleringer indicou que os antropólogos e arqueólogos também poderiam usar o método para analisar amostras de cabelo antigo, para mostrar os caminhos das migrações dos nativos americanos antes da chegada do homem branco ao continente.

Para entender como a água afeta os níveis de isótopos no cabelo, os pesquisadores precisaram aprender a forma de determinar a influência dos alimentos no cabelo.

Como resultado, isso permitiria aos arqueólogos analisar o pêlo de animais ou de seres humanos que viveram há muitos séculos para determinar seu consumo de proteínas, ou se sua dieta estava mais baseada em frutos do mar ou em alimentos cultivados. O estudo dos níveis isotópicos do cabelo também poderia ter uso na luta para prevenir ou antecipar o combate à diabete, segundo os especialistas.

Cerling explicou que devido ao fato de os diabéticos terem um alto consumo de água, a proporção de oxigênio em seu cabelo procedente tanto de água como de seus alimentos deveria ser diferente da dos não diabéticos.

- O cabelo também poderia registrar as mudanças isotópicas que se produzem como resultado de um agravamento da doença - indicou Ehleringer.