Cientistas afirmam que ONU subestima aquecimento global

Agência EFE

WASHINGTON - Seis especialistas de algumas das mais prestigiosas instituições científicas dos Estados Unidos alertam em uma publicação britânica que a civilização está ameaçada pela mudança climática. Os seis cientistas criticam implicitamente o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), da ONU, por subestimar a elevação do nível dos oceanos neste século como conseqüência do derretimento das geleiras e das calotas polares.

Em vez de uma elevação de 40 centímetros do nível do mar, prevista pelo IPCC, os cientistas americanos - liderados por James Hansen, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa - prevêem que o nível dos oceanos subirá vários metros até 2100.

O relatório alarmante da equipe de cientistas, divulgado nesta terça-feira pelo jornal britânico 'The Independent', foi publicado na revista 'Philosophical Transactions of the Royal Society'. Além de Goddard, assinam o trabalho Makiko Sato, Pushker Kharecha e Gary Russell, também do Instituto Goddard; David Lea, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara; e Mark Siddall, do Lamont-Doherty Earth Observatory na Columbia University, de Nova York.

No estudo, de 29 páginas, intitulado "A mudança climática e os gases estufa", os seis pesquisadores renunciam em algumas ocasiões à fria linguagem científica para insistir na importância dos problemas e desafios impostos pelo aquecimento do planeta.

Os especialistas afirmam que "a civilização se desenvolveu e construiu amplas infra-estruturas durante um período de estabilidade climática pouco comum, o Holoceno, que já dura quase 12 mil anos e que está perto de acabar".

Segundo os cientistas americanos, a humanidade não pode permitir a queima continuada das reservas subterrâneas de combustíveis fósseis restantes, pois fazê-lo significa que terá "um planeta diferente do que serviu de suporte à atual civilização".

Segundo James Hansen, a humanidade tem apenas dez anos para aplicar as duras medidas necessárias para reduzir as emissões de CO2 para evitar a elevação das temperaturas do planeta.

Se não for assim, o aquecimento resultante pode fazer com que as calotas polares se derretam rapidamente, processo que se agravará ainda mais quando a luz do sol, que atualmente é refletida pela superfície branca dos gelos, começar a ser absorvida pelas escuras águas marinhas.

Trata-se do efeito albedo, ou seja, a reflexão da radiação solar quando incide sobre o planeta: as superfícies claras, por exemplo, o gelo e a neve, se caracterizam por um maior albedo, enquanto as florestas, as rochas e os oceanos - superfícies obscuras - têm um inferior.

O último relatório do IPCC atribui um efeito mínimo ao derretimento dos gelos da Groenlândia e da Antártida sobre a elevação do nível dos oceanos neste século.

Os especialistas americanos discordam: para eles, as análises do IPCC não consideram suficientemente a "física não-linear da desintegração" das placas, correntes e plataformas de gelo.

Sua conclusão é que o nível de risco representado pelos gases liberados pela ação do homem é muito mais baixo do que normalmente se pensa e, se já não foi atingido, é certo que demorará muitas décadas antes de se chegar ao ponto crítico.