Salgueiro “carnavaliza” história de Dante Alighieri em desfile emocionante

Com um pouco de atraso no horário previsto devido ao acidente ocorrido durante o desfile da Paraíso de Tuití, uma das escolas mais vencedoras do carnaval do Rio de Janeiro, o Salgueiro faz desfile homenageando Dante Aighieri.

Fundada em 1953 a partir da fusão de duas escolas de samba do Morro do Salgueiro, o grêmio recreativo conquistou nove títulos do carnaval do Rio. Destacando o de 1993 com o enredo “Peguei um Ita no Norte” que trouxe um dos refrões mais entoados em blocos de rua até hoje, explode coração na maior felicidade…. 

Já passaram por seus barracões grandes nomes do carnaval como Joãozinho Trinta, Fernando Pamplona e Rosa Magalhães. Parte do Grupo Especial dos desfiles das escolas de samba, o Salgueiro leva na bandeira as cores vermelha e branca embaladas pelo ritmo da bateria Furiosa. 

O samba-enredo de 2017 é “ A Divina Comédia do Carnaval”,  a escola vai “carnavalizar” a história tradicional do escritor italiano Dante Alighieri, o poema épico do século XIV que narra uma odisseia pelo Inferno, Purgatório e Paraíso.

A Divina Comédia do Carnaval

Autores: Marcelo Motta, Fred Camacho, Guinga do Salgueiro, Getúlio Coelho, Ricardo Neves e Francisco Aquino

Enredo de 2017

"A Divina Comédia do Carnaval"

Sinopse

"Carnaval do Rio, vendaval de sentidos! (?) Tu és o espasmo da fera na civilização". (João do Rio)

Quem sou eu nessa selva de ilusões que se ergue quando o mundo real acaba em cinzas para renascer vibrante nas chamas de mais um Carnaval?Muito prazer! Sou um aventureiro errante, passageiro do delírio. Mas podem mechamar de poeta...Embarco numa viagem desvairada pelos três reinos místicos de Momo, navegando porum rio de escaldantes tentações."Se 'essa barca' não virar / Olê, olê, olá... Eu chego lá!"De mente aberta e alma liberta, lá vou eu!

ALEGRIA INFERNAL

No "Balancê, Balancê", a embarcação avança pelas águas assombradas de onde avisto as loucas fantasias dos que se entregam sem temor às garras da folia. São milhares de vozes que ecoam pelos abismos mais profundos, entoando uma ladainha profana, hino de tantos carnavais:"Mas que calor ô-ô-ô-ô-ô-ô"!

Estou em pleno Inferno, ardendo numa incontrolável febre de alegria. No rebuliço dos salões subterrâneos, o Bloco dos Mascarados arma as trincheiras para uma intensa batalha de confetes e serpentinas, libertando as feras que se escondem em cada um de nós.No decorrer do trajeto, vejo uma procissão pagã inundando de beleza a Avenida das Labaredas, onde ressoam alto os clarins pedindo passagem para os "Tenentes do Diabo". 

Numa triunfal aparição, é carregado em glória o Senhor das Profundezas, que uma vez por ano segue a comandar o soberbo desfile das Grandes Sociedades do Além-Túmulo. Nessa euforia aterradora, a ordem do Rei do Mundo Inferior é lavar a alma num irresistível transe coletivo, como se fosse o último Carnaval sobre a face das trevas.Mas sinto que é hora de partir, ainda que atraído pelas fogosas tentações espalhadas no caminho maligno que tanto me seduz. Sigo, então, a minha trajetória. Ainda há muito Carnaval para pular.

A História do Salgueiro

Foi fundado em 5 de março de 1953 a partir da união de duas escolas de samba do Morro do Salgueiro: Azul e Branco e Depois eu Digo. A Unidos do Salgueiro , terceira escola existente naquela localidade e que tinha como representante maior o sambista Joaquim Calça Larga, não concordou com a fusão e, por esse motivo, ficou de fora. Mais tarde, desapareceu. Em seu primeiro desfile, com o enredo "Romaria à Bahia" em 1954, a Acadêmicos do Salgueiro surpreendeu o público e alcançou a terceira colocação, à frente da Portela.O primeiro presidente do Salgueiro foi Paulino de Oliveira e nos anos que se seguiram, a escola ousou ao tratar de enredos que colocassem os negros em destaque, e não como figurantes. É exemplo marcante desse novo estilo, Navio Negreiro (1957). 

Mas foi em 1958, sob a presidência de Nélson Andrade, que a agremiação adotou o lema que traz até hoje: nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente. Foi Nélson Andrade o responsável pela ida do carnavalesco Fernando Pamplona para o Salgueiro, em 1960, dando início a uma grande mudança no visual da escola. Pamplona criou uma equipe formada por ele, o casal Dirceu e Marie Lousie Nery, Arlindo Rodrigues e Nilton Sá, revolucionou a estética dos desfiles das escolas de samba.Essa tendência foi reforçada com a chegada de Fernando Pamplona e, posteriormente, de Arlindo Rodrigues, que resgataram personagens negros que enriqueceram a história do Brasil, embora fossem pouco retratados nos livros escolares, como Zumbi dos Palmares (Quilombo dos Palmares - 1960), Xica da Silva (Xica da Silva - 1963) e Chico Rei (Chico Rei - 1964).

Na década de 1970, a escola consagra o jovem artista plástico Joãosinho Trinta, que foi aluno de Pamplona, nos memoráveis desfiles de 1971 Festa para um Rei Negro (samba composto por Zuzuca, tendo como carnavalesco Joãosinho Trinta com o qual obtém seu 5º título) e o bicampeonato em 74/75 com Rei de França na Ilha da assombração (samba composto em 1974 por Zé Di e Malandro tendo como carnavalesco Joãosinho Trinta que lhe rendeu seu 6º título do carnaval carioca) e As minas do rei Salomão (samba composto em 1975 por Nininha Rossi, Dauro Ribeiro, Zé Pinto e Mário Pedra e tendo como carnavalesco Joãosinho Trinta com o qual conquistou seu 7º título). Em 1978 entre as 10 escolas de samba no Grupo Principal, Salgueiro termina na sexta colocação e escapa por pouco do rebaixamento, a uma posição de Império Serrano.

Nos anos 1980 a escola amarga uma série de insucessos, disputas internas causaram afastamento de salgueirenses históricos e vê a ascensão de escolas como: Beija-Flor , Imperatriz e Mocidade Independente, cujos desfiles eram confeccionados por ex carnavalescos do Salgueiro, como Joãosinho Trinta, Arlindo Rodrigues e Rosa Magalhães.O jejum de títulos é quebrado em 1993 com o surpreendente , enredo de Mário Borriello e com o samba-enredo composto por Demá Chagas, Arizão, Celso Trindade, Bala, Guaracy e Quinho, sendo esse desfile foi responsável por um dos momentos mais inesquecíveis do carnaval carioca e por um dos melhores samba-enredo que a Sapucaí ouviu.Nos últimos anos seu carnaval foi feito pelo carnavalesco Renato Lage que foi discípulo de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Com a morte dos patronos Maninho e Miro Garcia, a vermelho-e-branca precisou mais do que nunca se unir para apresentar um grande desfile com o enredo Do fogo que ilumina a vida, Salgueiro é chama que não se apaga. 

O desafio foi vencido. O excelente desenvolvimento do enredo de Renato Lage e Márcia Lavia contava a história e a importância do fogo para a humanidade. A plástica do tema iluminou os carnavalescos a criarem um belíssimo trabalho de cores quentes e formas originais inspirados no elemento. O Salgueiro desfilou com uma garra que há muito tempo não se via. Exceto por problemas em duas alegorias, que tiveram dificuldade de passar pelas árvores não podadas da Presidente Vargas, a escola foi extrema em sua excelência e incendiou a avenida, credenciando-se ao título . Porém, na abertura dos envelopes, apenas a 5ª colocação foi reservada à escola.Golpe maior a escola sofreria no ano seguinte, quando levou para a avenida o enredo "Microcosmos - O que os olhos não veem, o coração sente" criado por Renato Lage e Márcia Lávia. 

Já contando com a estrutura do barracão na Cidade do Samba, a escola sentiu o peso de abrir o desfile do Grupo Especial, com um público ainda frio e pouco receptivo o. O resultado final foi a 11ª colocação, a pior da história do Salgueiro.Para se reerguer, em 2007 o Salgueiro foi em busca de suas raízes para encontrar, na África Oriental, a história das Candaces, rainhas negras que governaram o Império Meroe, sete séculos antes de Cristo. Tudo pareceu perfeito para mais uma vitória - ou pelo menos o vice-campeonato. A escola fez um desfile brilhante e saiu aclamada pelo público e pela imprensa como postulante ao título . Essa expectativa durou apenas até a leitura das primeiras notas, na quarta-feira de cinzas. Inexplicavelmente os jurados deram notas baixas à escola. Afastada da luta pelo campeonato, o Salgueiro terminou a apuração em 7º lugar. Em 2008, falando sobre a cidade do Rio de Janeiro, o Salgueiro conquista o vice-campeonato .Após o vice-campeonato, o Salgueiro realizou eleições para a escolha da diretoria executiva, responsável pelo comando da escola no triênio 2008/2010. 

A vencedora foi a candidata da situação, Regina Celi Fernandes Duran, segunda mulher na história a presidir a escola .Para 2009, a escola escolheu o enredo Tambor, de Renato Lage. O samba enredo vencedor foi composto por Moisés Santiago, Paulo Shell, Leandro Costa e Tatiana Leite. Graças a a esse enredo, o Salgueiro ganhou o campeonato deste ano, com um ponto de diferença da vice Beija-Flor e quebrando um jejum que durava 16 anos.Para o carnaval de 2010, o Salgueiro desenvolveu com o carnavalesco Renato Lage, o enredo "Histórias sem fim" contado a história do livro, que vem da Antiguidade até os tempos modernos . no entanto terminou a apuração na 5º colocação.Em 2011, o Salgueiro contou a história do cinema no Rio de Janeiro . 

O enredo foi desenvolvido por Renato Lage e com a volta de sua mulher, Márcia Lage. Além disso a direção resolveu fazer igual a escola-madrinha, com 3 intérpretes: com efetivação de Leonardo Bessa e Serginho do Porto, que antes eram apoio do carro de som, ao lado de Quinho. Ronaldinho que estava na escola a 10 anos, foi substituído por Sidcley, ex-mestre sala da Grande Rio. Era então uma das 3 favoritíssimas ao titulo.Apresentava um dos melhores conjuntos alegóricos. Maz fez um de seus piores desfiles, com problemas na entrada de três grandes carros, congestionamentos de alegorias na dispersão, comprometendo sua evolução e, principalmente, gerando uma punição de 1 ponto pelo estouro do tempo máximo em 10 minutos. Mesmo assim, a escola terminou na 5ª colocação, voltando para o desfile das campeãs. No ano de 2012 a escola levou para a avenida o enredo "Cordel branco e encarnado" falando sobre a literatura do nordeste e foi a vice-campeã do carnaval, ficando a apenas dois décimos da campeã Unidos da Tijuca.

Em 2013, a escola apresentou na Marquês de Sapucaí o enredo "Fama", no qual foi patrocinado pela revista Caras. A agremiação foi a 2ª escola a desfilar no primeiro dia de desfiles (Domingo). tendo Xande, do Grupo Revelação como participação especial, integrando junto com Quinho, Leonardo Bessa e Serginho do Porto . O desfile foi sem erros porém não empolgou o público presente no sambódromo . Devido a rigorosidade dos jurados nesse ano muitas escolas, incluindo a vermelho e branca, não obtiveram muitas notas "Dez". Porém, devido ao equilíbrio das escolas, o Salgueiro conseguiu a 5ª colocação credenciado-a ao Desfile das Campeãs.Após cinco anos do carnaval campeão "Tambor", o Salgueiro retoma a estética afro tão associada à sua história no enredo "Gaia, A Vida Em Nossas Mãos", que abordou a criação do universo sob a ótica da lenda africana de Olorum, com um toque de apelo pela sustentabilidade nos dias atuais (um desejo já demonstrado pelos orixás em suas lendas e ideais) . O samba composto por Xande de Pilares, Dudu Botelho, Miudinho, Betinho de Pilares, Rodrigo Raposo e Jassa consagrou-se como o melhor do ano, eleito por público e crítica. 

O desfile recebeu vários prêmios como o Estandarte de Ouro de Melhor Escola, Samba-Enredo e Bateria, mas a Academia ficou com o vice-campeonato, perdendo para a Unidos da Tijuca (mesmo algoz de 2012) pela diferença de apenas um décimo.Em mais um pleito, Regina Celi sagrou novamente presidente da Academia , como candidata única, após serem constatadas irregularidades nas chapas de Fú e do intérprete Quinho, . A chapa de Quinho foi considerada uma surpresa, sendo mal-recebida por muitos salgueirenses simpatizantes de Regina. Após a reeleição da presidente, foi confirmado o afastamento do cantor. A escola renovou contrato com o carnavalesco Renato Lage para o carnaval 2015, e logo depois foi confirmado que a escola falará sobre a culinária mineira no Carnaval de 2015, através do enredo "Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí". Mais uma vez a Academia fez um desfile irrepreensível, mas novamente amargou o vice-campeonato, desta vez para a Beija Flor de Nilópolis, pela diferença de quatro décimos.

No dia 10 de março de 2015, o Salgueiro anunciou o enredo para 2017: "A Ópera dos Malandros" será desenvolvido novamente por Renato Lage e Márcia Lage. Os integrantes do Departamento Cultural da escola voltaram a desenvolver a sinopse do enredo após quatro anos. A receptividade tem sido positiva por conta dos salgueirenses e torcedores de outras escolas. O Salgueiro será a segunda escola a entrar na avenida na noite de 8 de fevereiro de 2017. Em 33 desfiles da Era Sambódromo, esta é apenas a 10ª vez que a Academia foi sorteada para a segunda-feira de carnaval.