“Dai-lhes vós mesmos de comer”

Celebramos com alegria a festa de Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, propondo para reflexão esta ordem do Senhor aos discípulos atentos à fome da multidão desejosa de ouvir a palavra de Deus: “Dai-lhes vós mesmos de comer!”.

Aqui no Rio de Janeiro iremos nos reunir por volta das 16hs, defronte a Igreja da Candelária para iniciar a grande procissão para a Catedral Metropolitana de São Sebastião. Convido meus diocesanos a trazerem alimentos não perecíveis para os inumeráveis projetos sociais mantidos pela nossa Igreja Metropolitana.

Para entender bem o contexto, importa voltarmos um pouco à narrativa do Evangelho de Lucas 9. Após terem recebido e realizado a missão que o Senhor lhes confiou, os Apóstolos voltam animados contando a Jesus tudo o que, em seu nome, realizaram pelo mundo afora.

Talvez, percebendo que as atividades apostólicas foram muito intensas, Jesus propõe um retiro aos discípulos, ou seja, chama-os à parte para a região de Betsaida. Não conseguem, porém, o almejado silêncio, pois as multidões os seguem e o Senhor não deixa de atendê-las em suas necessidades espirituais, falar-lhes do Reino de Deus, e materiais, restituir-lhes a saúde do corpo.

Ocorre, no entanto, que a tarde se aproximava e o povo continuava firme junto a Jesus, de modo que os preocupados Apóstolos recorrem ao Mestre com uma proposta: “Despede a multidão, para que vão aos povoados e campos vizinhos procurar pousada e alimento, pois estamos num lugar deserto”. Em vez de atendê-los, Cristo lhes devolve o problema com a frase que dá título a este artigo: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.

Ora, essa ordem vinda dos lábios do Senhor poderia, em outro contexto e com outras pessoas, soar como pouco caso. Afinal, em um local ermo, em meio à simplicidade típica dos Apóstolos, que pouco ou nada de material carregavam consigo, como poderiam resolver a difícil situação a eles proposta? Não seria mais fácil o próprio Jesus mandar, imediatamente, embora aquele povo e acabar logo com o problema?

Pode ser que esses pensamentos tenham tomado as mentes daqueles homens, mas eles não debatem, apenas fazem outra proposta, que, na verdade, se desdobra em duas alternativas, visando atender à ordem do Mestre: “Não temos mais do que cinco pães e dois peixes; a não ser que fôssemos comprar alimento para todo esse povo”. As duas saídas eram inviáveis, na prática, pois o texto continua dizendo que estavam ali “quase cinco mil homens”, cifra à qual Mateus acrescenta “sem contar as mulheres e as crianças” (14,21).

Coloquemo-nos aqui no lugar dos Apóstolos. Estamos, no entardecer (lembremo-nos de que não havia, evidentemente, luz elétrica), em um lugar afastado, sem alimentos (cinco pães e dois peixes é algo irrisório) e sem dinheiro, diante de um povo cansado e faminto. Humanamente falando, é o desespero personificado nessa cena. Não parece haver saída a não ser mandar aquela gente embora, ou seja, fazer com que cada um resolva seus problemas do modo que puder.

Já ouviram a pregação, foram curados gratuitamente, agora ainda é preciso dar-lhes também alimentos? Ah! Isso não! É querer demais. Entendemos aqui nossas mesquinhas atitudes quando dizemos: “Isso já não é comigo. Já fiz a minha parte. O que era preciso (pregar e curar) foi feito. Fazer mais é impossível”. No entanto, o Senhor insiste e pede esse mais: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.

Pois bem. Se a proposta do Senhor é estranha, as alternativas dos seus seguidores também são: ter cinco pães e dois peixes ou ir aos povoados comprar alimentos. Eis, porém, que Jesus descarta a segunda solução, que é sair para buscar algo fora, e fica com aquilo que pode ser extraído de dentro da própria comunidade ali reunida: propõe o uso dos cinco pães e dos dois peixes.

Acomodado o povo em grupos de cinquenta, Ele toma os alimentos, eleva os olhos para os céus, abençoa a refeição, parte-a (reparte-a) e chama os discípulos para que façam a distribuição ao povo. Agora, como se vê, está mais fácil, pois há o que distribuir. Não é uma utopia como parecia no início da narrativa. Está ali grande quantidade de pães e de peixes de modo que todos se saciam e das sobras ainda se recolhem doze cestos.

Estamos, sem sombra de dúvidas, como atesta toda a Tradição da Igreja, diante de um grande sinal, rico em significados para nós, especialmente no que toca à Sagrada Eucaristia, cuja festa hoje celebramos.

Estamos em um contexto de missão. O senhor acabara de constituir os seus discípulos em missionários que deveriam sair pelo mundo de modo desprendido para pregar, curar, realizar prodígios em Seu nome etc. Eles executam a incumbência que o Senhor lhes confiou, obtêm sucesso e, por essa razão, retornam felizes para o Mestre. Saem para um retiro, mas nem mesmo lá têm o merecido descanso. São chamados pelo próprio Cristo a resolver o problema do povo faminto.

Tal ocorrência quer nos dizer que, sem cair no ativismo, o homem e a mulher que se entrega a Deus deve fazê-lo com a dedicação total daquele(a) que, qual chama de uma vela, se consome pelo Reino, de modo a rezar falando das necessidades do próximo para Deus e a agir falando de Deus para o próximo mais necessitado. É verdadeiro(a) missionário(a) aquele(a) que não faz apenas o que deseja, mas, ao contrário, executa o que o Senhor pede nas horas mais inoportunas da vida como naquele momento precioso de sono, no dia ou hora de merecido descanso, no momento em que ia chegar uma visita importante para o almoço, mas, inesperadamente, Cristo lhe bate à porta, na pessoa do irmão desejoso de um prato de comida etc.

Nossa tendência humana, fraca como é, tende a deixar para depois ou a buscar soluções mais fáceis e descomprometidas como aquelas, infelizmente muito medíocres, dos que dizem mais ou menos assim: “Não tenho obrigação de ajudar, a Paróquia que os socorra”. “Não é em vão que já pago meu dízimo”. “Eu doo o quilo todos os meses”. “Vendo rifas dos bolos de festas entre outras coisas”. Não terá sido semelhante a este também o pensamento que assaltou os Apóstolos quando foram desafiados a dar eles mesmos de comer àquela gente?

Sim, pois não é estranho que tenham pensado, repetimos: “Já fizemos nossa missão, realizamos portentos, voltamos felizes, prestamos nossas contas, estamos em nosso descanso, essa gente vem nos importunar, tomam nosso tempo junto ao Mestre e como se tudo isso não bastasse, temos de lhes saciar também a fome arrumando algo para comerem?”.

É, no entanto, nessas crises entre o pensamento misericordioso do Senhor e as nossas conjecturas mesquinhas superadas que as maravilhas celestes se realizam abundantemente. Já no Antigo Testamento, em tempos difíceis, Deus dá a todos o maná, que prefigura a Eucaristia, a fim de que, nos acampamentos dos judeus, ninguém perecesse, pois Pai celeste cuidou dos seus escolhidos e os saciou com fartura (cf. Êx 16).

Algo interessante ainda se pode notar: o Senhor não precisa de nós, mas, como é nosso parceiro de vida, quer precisar do nosso auxílio. Chama-nos à responsabilidade ordenando-nos “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Ordem difícil, mas possível com a força divina. Basta que apresentemos o pouco que temos para que desse pouco Ele faça maravilhas em nosso favor e em benefício dos que convivem conosco.

Que pouco é esse que tinham os discípulos – e nós também hoje temos? – É algo singelo, cinco pães e dois peixes, mas que somados, graças ao convite, a entrega e a bênção de Cristo, se tornam o importante e perfeito alimento. Temos, com a soma, sete coisas. Número bíblico da perfeição. Daí, talvez, venha o conhecido provérbio que diz: “O pouco com Deus é muito. O muito sem Deus é nada”.

O milagre da multiplicação dos pães e dos peixes não se dá, no entanto, em um passe de mágicas, mas, sim, no contexto da oração que o evangelista bem detalha: tomar nas mãos o alimento, elevar os olhos aos céus, abençoar, partir e, então, entregar aos discípulos para que distribuam à multidão. É a prefiguração da Eucaristia. Esses verbos da narrativa lembram os mesmos utilizados para nos transmitir a última ceia ao dizer que Cristo toma o pão, abençoa, parte, entrega...

A diferença, contudo, é a de que aqui Ele apenas entrega o pão e na última ceia Ele se entrega no pão que, consagrado, não representa, mas é o próprio Senhor presente em seu corpo, sangue, alma e Divindade para alimento e sustento do seu povo neste mundo, em caminho para a Pátria definitiva.

No episódio do Evangelho, todos se fartam e ainda são recolhidos das sobras doze cestos cheios. É outro simbolismo: doze lembra a totalidade, as doze tribos de Israel. Mostra que o Senhor quer saciar a todos, indistintamente. Não deseja, porém, que nada seja desperdiçado, mas que as sobras sejam coletadas para serem usadas em outra refeição, em outro momento. A comida é sagrada, foi criada por Deus para matar a fome e não para ser jogada fora por uns enquanto faz falta para outros.

Ora, irmãos e irmãs, se essa leitura prefigura a Eucaristia como não recordar que também na Santa Missa as partículas não consumidas são, respeitosamente, recolhidas na âmbula e guardadas no Sacrário para servirem, sobretudo, à comunhão dos doentes e dos moribundos (“viático”) ou, então, para serem comungadas em outra celebração. Aqui, todavia, se dá algo especial que a Igreja sempre valorizou ao longo de sua história: em cada uma dessas partículas está realmente presente o Senhor Deus e por isso deve ser adorado por todos nós.

Daí a importância de que visitemos com frequência, se possível diariamente, a Jesus Sacramentado. Afinal, aí está um grande mistério, mistério de fé, como professamos em todas as Missas, após a consagração: como Deus, sendo a grandeza por excelência, se faz tão pequeno a ponto de vir morar entre nós no seio de uma mulher, a Virgem Maria, e depois ficar no nosso meio na hóstia consagrada, conforme bem refletiu o Papa João Paulo II, na Encíclica Ecclesia de Eucharistia n. 55? Só pode ser por um grande amor, amor divino merecedor de toda nossa adoração.

Desejamos, por fim, lembrar que a missão de adorar o Senhor na Eucaristia – seja silenciosa e pessoalmente, em alguns momentos do dia, seja com cantos, enfeites e procissões no dia de Corpus Christi – jamais pode estar dissociada da ajuda aos irmãos e irmãs mais necessitados(as) que acorrem a nós não só em busca da Palavra de Deus, mas também do alimento corporal.

Afinal, é nobre missão da Igreja, no seu trabalho evangelizador, lutar pela promoção humana (cf. Evangelii Gaudium n. 178), especialmente daqueles que mais necessitam de nossa presença fraterna e acolhedora nas “periferias existenciais” – expressão cara ao Papa Francisco – de suas vidas, pois é certo que a cada um de nós, hoje, o Senhor Jesus dirige a mesma exortação feita aos Apóstolos: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist. -   Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ.