Para crime não há jeitinho

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - A revelação de que dois policiais militares teriam recebido propina para liberar Rafael Bussamra, após este ter atropelado e matado o jovem Rafael Mascarenhas num túnel interditado na Zona Sul do Rio, semana passada, chocou a sociedade. Chocou, mas não surpreendeu. E por um motivo simples: há muito a propina é vista como mais uma ferramenta no famigerado baú do jeitinho brasileiro.

Infelizmente, há muita gente que não vê nada demais em dar um dinheirinho, um agrado, uma caixinha a um policial prestes a apreender um veículo ou multar seu condutor. Na cultura brasileira, a linha que separa a gorjeta do garçom do suborno ao agente da lei é a cada dia mais tênue, o que aumenta os riscos da ação perniciosa. No caso citado acima, em acidente que comoveu o país, o sargento Marcelo Martins e o cabo Marcelo Bigon, ambos do 23º BPM (Leblon), não se intimidaram com cobrar ao pai do atropelador R$ 10 mil a título de serviços prestados o que pode ser traduzido em facilitar a fuga de um homem que atropelou e matou um jovem numa pista interditada. Na contabilidade dos PMs, era uma colaboração merecida.

Não é de hoje que o dinheiro obtido ou oferecido de forma ilícita corrói a base da sociedade brasileira. A corrupção é mãe de muitas de nossas mazelas, e nos mais diferentes setores da sociedade. Na política, escândalos de todo tipo já entraram para o anedotário nacional. Valores elevados, resultado de suborno, cruzam o país em malas, meias e cuecas. No meio empresarial, o cenário não é diferente, com destaque para ações protagonizadas por muitas das principais empreiteiras do país, que se utilizam da farta distribuição de verbas para abrir caminhos para novos negócios milionários. Quanto mais dinheiro envolvido, mais espaço para a bandidagem em forma de notas de dólares e reais.

É o dinheirinho por fora para o burocrata que promete agilizar a emissão de um documento, para o fiscal que faz vista grossa a irregularidades, para o vendedor que vai pôr o corruptor na frente da fila... É uma prática perniciosa, bem conhecida do cidadão comum, e que traz consigo um agravante: não raramente, quem paga e quem recebe consideram que não estão cometendo uma irregularidade. Ledo engano.

Não custa lembrar: corrupção, seja ativa ou passiva, é crime. E, como tal, deve ser combatida com rigor, e em todos os níveis. Casos emblemáticos, que ganham espaço farto na mídia, precisam ser punidos exemplarmente e com todo o peso contido na lei. Se a lei é branda, que a sociedade civil se mobilize para torná-la mais forte e capaz de oferecer penas duras àqueles que fizeram por merecê-las. Para o cidadão de bem, só há uma opção: ficar, intransigentemente, do lado da lei. Do contrário, estará se igualando aos corruptos que tanto critica.