Lei Seca contra Lei de Gérson

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Época de Copa do Mundo é dos momentos em que talvez haja mais interação social na vida dos brasileiros. Eles se reúnem para acompanhar a Seleção, em casa ou nos bares, e independentemente do resultado uma coisa é certa: terminado o jogo, milhões terão ingerido, entre um lance e outro, quantidades suficientes de álcool que, no trânsito, podem transformar em tragédia o que deveria ser uma festa ou mostrar que há desastres muito maiores que a perda de uma partida de futebol.

Nada mais prudente, portanto, do que a decisão das autoridades do governo do estado de antecipar o horário de início da Operação Lei Seca em dias de jogos da Seleção Brasileira. Como ocorrido na última terça-feira, na partida de estreia no Mundial, as blitzes serão montadas nos próximos jogos a partir das 17h30, no trabalho ao mesmo tempo coercitivo e pedagógico que tem salvado milhares de vidas.

A Operação Lei Seca foi iniciada em março do ano passado e, desde então, segundo cálculos do governo, já evitou que mais de 5 mil pessoas se envolvessem em acidentes no Rio de Janeiro.

A lei demorou a pegar. Houve e ainda há tentativas de enfraquecê-la, especialmente com o movimento que se popularizou no microblog Twitter, pelo qual motoristas são avisados e evitam os pontos da cidade em que a polícia está realizando as blitzes.

A burla, porém, não foi suficiente para minimizar a eficácia das operações. Com o apoio de grande parte da sociedade que se convenceu das vantagens da lei, apesar das restrições rigorosas ao consumo de álcool e com a atuação persistente da polícia, criou-se um novo comportamento. Motoristas deixam seus carros em casa e passam a utilizar táxi, como forma de se sentirem mais livres para ultrapassar os limites da legislação. Nos grupos de amigos, institucionaliza-se a figura do motorista da rodada , aquele que ficará responsável, durante a saída, por não beber e levar o grupo de volta, com segurança.

Não bastassem os óbvios benefícios individuais e coletivos, com a prevenção de mortes no trânsito, a lei estimula o comportamento cidadão, de respeito às leis, aos outros, a si mesmo. É um exercício de civilidade que muitas vezes falta à cultura brasileira, tão afeita ao jeitinho, ao drible em questões fundamentais, a levar vantagem em tudo mania que se batizou como Lei de Gérson, para infelicidade do craque da Copa de 70.

Mas, quando quer, ou se sente realmente intimado a agir corretamente, o brasileiro responde. O uso obrigatório do cinto de segurança é exemplo de regra que pegou. A Lei Seca, também. Das mais de 220 mil pessoas que fizeram o teste do bafômetro, em pouco mais de um ano, 98,3% foram liberadas, pois não tinham grau de alcoolemia. Na empolgação dos jogos da Seleção, a conscientização não pode afrouxar. E, assim, a Lei Seca vai derrotando a de Gérson.