O caso do poste enferrujado

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

RIO - Na pacata Rua General Rabelo, na Gávea, onde moro há 17 anos, quase em frente ao nosso edifício, um velho poste enferrujado, que sustenta e equilibra a complicada traquitana da Light resolveu pregar, por duas vezes, uma peça nos moradores.

Por telefone, pombo correio, carta ou telegrama os moradores foram avisados do dia e do horário, das 10 da manhã às 17 do entardecer, que a rua de mão única que começa na Rua General Rodrigo Otávio e termina na Rua Marquês de São Vicente, próximo ao Shopping da Gávea seria fechada para a recuperação do venerando poste, já nos seus últimos suspiros.

Não é uma maçada de pouca monta. Para a maioria dos que guardam seus carros nas garagens dos prédios em que moram, a ida e volta para o trabalho custa o preço de duas corridas de táxi. Até pouco tempo, o metrô da estação de Botafogo ou do Cantagalo quebrava um galho, com mais uma caminhada puxada ou minutos de táxi.

O metrô envelheceu e caducou de repente, com a inesgotável criatividade do governo para estragar o que está dando certo. A lambança das alterações nas linhas, multiplicando as baldeações nos cruzamentos que copiam as casas de marimbondo, conseguiu a mágica da superlotação em toda a rede do metrô, que pouco diferem da barafunda dos trens da Central.

Mas, retomamos o fio da meada. Há quatro semanas, a Light condenou os moradores da Rua General Rabelo à proibição do tráfego por nove horas. E foi obedecida entre o trincar de dentes e os xingamentos em voz baixa. Para os moradores, como nós, quase em frente da relíquia tombada para um lado pela ferrugem, saía barato um dia de mortificação. E a curiosidade impôs a vigília de horas até o escurecer. Ninguém, sejam os síndicos dos prédios ou os porteiros, recebeu qualquer aviso ou explicação. A Light é a dona da rua.

E gostou da patuscada. Esta semana, a mesma molecagem. O aviso desta vez era para valer, pois o poste adernava e podia desabar a qualquer momento com a lata velha da caixa de Light. E a mesma molecagem. Nenhum carro saiu da garagem. Os táxis faturarem um extra. E a mesma indiferença pelos aborrecimentos dos moradores da rua tranquila, condenada a submeter-se à incompetência de uma empresa que não atrasa um minuto na cobrança das contas, mas caçoa dos que são obrigados a utilizar os seus serviços e a pagar as contas em dia.

E, como no circo, amanhã, na próxima semana ou na outra, tem mais. Tem espetáculo, sim, senhor!

Villas-Bôas Corrêa é repórter político do JB.