Argentinos aprendem a lidar com

Portal Terra

PRETÓRIA - São quase três semanas de convivência com alguém que você sempre idolatrou. Os argentinos vivem uma rara experiência nesta Copa do Mundo: ser treinado por uma espécie de "deus" no país, um ídolo que fez parte da infância de cada um e provavelmente ajudou a despertar a vontade de ser jogador de futebol.

Ter Maradona como técnico exige dos jogadores argentinos um esforço de separar o mito do profissional. Sem exagero, seria como uma integrante de um fã-clube da Madonna ter a oportunidade de fazer um tour de mais de um mês com a cantora, mas na condição de subordinada, tendo de cumprir ordens e atender às suas vontades.

Pelo menos no discurso, os argentinos estão lidando bem com a situação. O zagueiro Nicolás Burdisso, que deve começar a Copa do Mundo entre os reservas da seleção, disse que a figura lendária de Maradona foi esquecida na primeira conversa. Mas que será muito lembrada, em histórias contadas para seus netos.

"A lenda de Maradona vai sempre estar conosco. Só sei que depois da primeira conversa com Maradona, deixamos de necessitar de um ídolo e necessitamos de um técnico. Neste momento, a relação é entre técnico e jogador. Quando terminarmos, seguramente ficaremos felizes por ter estado, participado e ter tido Maradona como treinador", disse.

Para não criar uma relação entre fã e ídolo, Maradona também se esforça. Durante os treinos, brinca com os jogadores e tenta passar que é, antes de tudo, um amigo. Distribui abraços, conversa individualmente e não tem comportamento de chefe mandão. Em resumo, busca se integrar ao grupo como se ainda fosse um jogador.

Muito questionado no seu início de trabalho na Argentina, inclusive com declarações de jogadores como Verón contestando algumas decisões, Maradona agora também é elogiado por seu método profissional. O defensor Nicolás Otamendi diz que o herói da conquista do bi em 1986, no México, sabe colocar em prática tudo o que aprendeu durante a carreira.

"Ter Maradona como técnico é algo extra porque obviamente ele é mais do que um treinador para nós. Mas Diego também sabe como lidar com o vestiário e como fazer um bom treinamento, porque já foi jogador", argumenta.

No entanto, a lua-de-mel pode acabar caso a Argentina passe por problemas na Copa do Mundo. Sob pressão, Maradona é explosivo e não mede palavras nem atitudes. Pode se transformar de amigo a chefe autoritário em pouco tempo e causar desgastes capazes de abalar até a sua figura de mito para os jogadores. É difícil de prever como ficará a relação após este mês de convivência.