Integração é a solução

Marcus Quintella, Jornal do Brasil

RIO - Com a proximidade de dois grandiosos eventos esportivos, a Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, os especialistas em transportes voltaram a debater sobre a gravidade da situação do transporte público nas regiões metropolitanas brasileiras e sobre a falta de maior integração entre os modos de transporte existentes.

Nas últimas décadas, o Brasil transformou-se num país urbano, visto que pouco mais de 80% de sua população passaram a viver em cidades e, naturalmente, tornaram-se dependentes do transporte público para efetuar seus deslocamentos. Com essa espetacular demanda atual por transporte de cerca de 155 milhões de pessoas, a qualidade do transporte de passageiros e mercadorias nas pequenas, médias e grandes cidades brasileiras está cada vez mais difícil, com alta tendência de crescimento dos congestionamentos, das perdas de tempo, das poluições atmosférica e sonora, dos acidentes, do consumo energético, entre outros malefícios.

As nossas regiões metropolitanas vêm apresentando sistemas de transporte desorganizados e deficientes, principalmente em virtude das ocupações desordenadas e usos indevidos do solo urbano, cujas regras e leis para combater tais ações não são cumpridas, assim como são ignoradas as normas federais, estaduais e municipais para a estruturação dos sistemas de transporte.

Para efeito comparativo, as metrópoles de Madri, Paris e Nova York possuem sistemas de transporte público organizados e eficazes, baseados nos clássicos modos de transporte por trens urbanos, metrôs e ônibus. O sucesso do transporte público nessas cidades está relacionado à existência, em cada uma delas, de uma única autoridade metropolitana, responsável pelo planejamento geral da infraestrutura de transporte, integração intermodal, definição de operações, controle do trânsito, integração tarifária etc.

No Brasil, a integração teve início com a reforma no sistema de transportes de Curitiba e Goiânia, em 1974, e o sistema de alimentação por ônibus do metrô de São Paulo, a partir de 1975. Os sistemas de transporte integrados por metrôs, trens urbanos, ônibus municipais e intermunicipais, nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Campinas e noutras de portes médio e grande, são desorganizados institucionalmente e controlados por entidades diferentes, que muitas vezes não se entendem ou possuem objetivos conflitantes.

Para que cada região metropolitana brasileira possa apresentar uma organização institucional forte, baseada em modelos sistêmicos e integrados, é fundamental a criação de uma autoridade metropolitana única, controladora do transporte público. Isso poderá atrair o interesse da iniciativa privada em investimentos em transporte metroferroviário, visto que a capacidade de endividamento dos governos encontra-se limitada e, em alguns casos, esgotada.

As nossas metrópoles carecem urgentemente de organismos pensadores em transporte público, nos moldes das autoridades únicas existentes em Madri, Paris e Nova York, que promovam discussões técnicas, estudos de viabilidade, pesquisas tecnológicas e planejamento de ações que tragam eficácia e qualidade para o setor.

Espero que a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos despertem a ideia de que o transporte urbano deve ser racionalmente organizado em forma de redes integradas e gerenciado segundo uma visão sistêmica, para que possa atender a população de forma rápida, econômica, segura e confortável, garantindo, assim, uma boa qualidade de vida para todos. Os projetos que estão sendo pensados para esses eventos, especialmente para o Rio de Janeiro, baseados em corredores expressos de ônibus (BRT), expansão do metrô e modernização dos trens metropolitanos, têm tudo para melhorar o transporte público na Cidade Maravilhosa, desde que façam parte de um grande sistema integrado, com modicidade tarifária e gerenciado de forma sistêmica e autocrata.

Marcus Quintella é engenheiro.