Sepultamento 467 anos depois

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Jornal do Brasil

RIO - Nicolau Copérnico autor da teoria heliocêntrica teve os seus restos mortais identificados em 2008, sendo sepultado na catedral de Frombork, onde passou os 30 últimos anos de sua vida.

Pouco se sabia sobre o local onde foram depositados seus restos mortais. Segundo certas hipóteses, eles se encontravam próximos ao quarto pilar, pois era lá que se elevava o altar do cônego Nicolau. Com efeito, de acordo com um velho costume, sepultavam-se os cônegos ao lado do altar onde rezavam a missa. Até 1560, existiu junto a esse pilar uma pedra, na qual se lia uma modesta inscrição que sugeria que lá fôra enterrado um humilde pecador e não um sábio que tanto honrou sua pátria e tanto ilustrou a ciência e a humanidade. Eis a inscrição: Não peço o perdão dado a Paulo, nem espero a graça feita a Pedro, rezo somente pelo favor que receberam os ladrões crucificados . Esse epitáfio, extraído de um poema de Eneias Silvio de Piccolomini (papa Pio II), não tem nada de astronômico, mas o último desejo de um humilde católico que depois de tantos serviços prestados à comunidade e à ciência, só solicitou que fosse perdoado como o comum dos pecadores. Na realidade, estas palavras refletem, sem dúvida, os últimos desejos do cônego de Torun.

Quase 30 anos depois da morte do sábio de Torun, o historiador polonês Martin Kromer, eleito bispo de Warmia, decidiu que só assumia após substituir o epitáfio anônimo da pedra tumular por um que fizesse referência ao astrônomo. Assim, a velha pedra foi substituída por uma placa de mármore, com a inscrição: Reverendíssimo Nicolau Copérnico de Torun, artista e médico doutor, cônego de Warmia e restaurador da astronomia: homenagem de Martin Kromer, bispo de Warmia, em honra à memória e à causa da posterioridade, 1571 .

No século 17, durante as guerras que assolaram a Polônia, os invasores suecos destruíram os túmulos procurando joias, quando então dispersaram os restos mortais que tinham sido enterrados na catedral de Frombork. Por este motivo não se sabia onde estariam os ossos de Copérnico.

Em 1758, o capítulo de Warmia decidiu colocar na igreja uma placa comemorativa dedicada à memória de Copérnico. Um retrato de Copérnico, executado em 1735, foi afixado, num local mais digno, ou seja, sobre o pilar situado à esquerda do altar principal, onde se encontrava até recentemente.

Desde meados do século 18, cientistas poloneses, franceses e alemães procuraram pelo túmulo de Copérnico. Em 2005, o arqueólogo polonês Jerzy Gassowski, do Instituto de Antropologia e Arqueologia de Pultusk, descobriu o crânio e os ossos de Copérnico no altar de Santa Cruz, um dos 16 altares levantados entre as imponentes colunas da catedral de Frombork (Polônia), perto do altar, onde Copérnico possuía a guarda.

Em 20 de novembro de 2008, pesquisadores do Instituto de Medicina Forense de Cracóvia e a Universidade de Uppsala confirmaram que o crânio e o fêmur encontrados eram de Copérnico; graças a dois fios de cabelo encontrados em um exemplar do Calendarium Romanum Magnum de Johannes Stoeffler, obra que acompanhou Copérnico durante toda a sua vida e que foram levados pelos suecos durante as guerras sueco-polonesas do século 18. Análises realizadas em laboratórios da Suécia e da Polônia confirmaram: os dois fios tinham as mesmas sequências do genoma do crânio de Frombork.

Em 22 de maio de 2010, o astrônomo cujos restos mortais foram identificados, foi enterrado novamente na catedral de Frombork, 467 anos depois de sua morte. Durante uma cerimônia religiosa, o caixão de Copérnico foi novamente enterrado sob o piso da catedral construída no século 14, ao pé de um túmulo de granito preto novo no qual foi gravada a representação de um modelo do sistema solar. Em discurso, o arcebispo Jozef Zycinski lamentou os excessos de zelos dos defensores autonomeados da Igreja. Ele lembrou neste contexto a condenação em 1616 pelo papa Paulo V da obra do astrônomo, na época considerada contrária à Escritura.

Ronaldo Mourão é astrônomo, autor de 85 livros, dentre eles Copérnico: pioneiro da revolução astronômica .