Um absurdo não justifica outro

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - O Senado não se emenda. Depois de protagonizar em 2009 um mar de lama, com uma onda atrás da outra envolvendo membros honorários da Mesa Diretora, funcionários-fantasmas, a descoberta da publicação de atos secretos durante anos a fio, entre outros escândalos , a Casa não poderia, claro, ficar muito tempo sem produzir um novo episódio que choca a opinião pública, se é que isto ainda é possível.

Trata-se agora do anúncio da recontratação da Fundação Getulio Vargas (FGV) para refazer o mesmo trabalho que a instituição entregou ao Senado, no ano passado, em meio à profunda crise que atingia a Câmara Alta. Depois de desembolsar R$ 250 mil para a FGV elaborar um plano de reforma administrativa que enxugasse seus quadros, o Senado não só deixou de executar o que os especialistas receitaram como pagará mais R$ 250 mil por uma nova consultoria técnica da fundação.

Não há outras palavras se não escárnio, desperdício do dinheiro público e outras assemelhadas para descrever o que os parlamentares estão a propor, mesmo depois do tanto que se pressionou e se pediu pela moralização da Casa. Questionado sobre por que o plano de reestruturação da FGV ainda não foi executado, o primeiro-secretário, senador Heráclito Fortes (DEM-PI), respondeu que mudanças deste tipo não podem ser feitas apressadamente, num prazo de 30, 60 ou 90 dias. Ora, em primeiro lugar, o prazo anunciado à época era que as medidas seriam aplicadas em 60 dias. E, em segundo lugar, já se passou mais de um ano desde que o plano de gestão da FGV foi entregue às excelências, os legisladores.

O Senado tem uma estrutura cara e mastodôntica, com cerca de 10 mil funcionários para auxiliar o trabalho de apenas 81 senadores. Em dez anos, o orçamento da Casa triplicou de quase R$ 900 milhões para R$ 2,7 bilhões, 80% de cujo valor são gastos com salários, alguns de marajás. Em meio ao escândalo do ano passado, descobriu-se que mais de 700 pessoas recebiam acima de R$ 24.500, então teto do funcionalismo. Havia até diretores de garagem e de clipping ganhando salários de altos executivos. O plano da FGV previa o enxugamento dessa estrutura perdulária e ineficaz. O número de diretorias deveria ser cortado de 181 para sete. A meta, encampada pela presidência, seria a de reduzir a estrutura da Casa em 30% e, numa segunda etapa, em 60%.

A pressão popular arrefeceu, e nada andou por conta própria. Pelo contrário. Inacreditavelmente, o projeto da FGV, desfigurado, transformou-se num trampolim para aumentar ainda mais a gastança, o que está motivando a recontratação dos serviços da fundação. Mas tamanho absurdo não justifica outro.