Um renascimento mar adentro

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - É de se comemorar o anúncio de que o Rio de Janeiro vai ganhar mais um grande investimento na área da indústria naval. O arrendamento pela Petrobras do Estaleiro Inhaúma, que ocupará as antigas instalações do Ishibras, na Zona Portuária, é uma boa notícia que confirma o tão esperado renascimento do setor, que vem ocorrendo nos últimos anos, no estado e no país.

A reativação do Inhaúma deverá gerar cerca de 5 mil empregos diretos e faz parte de um esforço conjunto entre a Petrobras e os governos estadual e municipal. A retomada das operações foi possível após um acordo que contornou pendências de créditos tributários, que impediam a reabertura do estaleiro. Depois da negociação com o governo Sérgio Cabral, a Petrobras busca agora, com a prefeitura, uma redução da alíquota do ISS, dos atuais 5% para 2%, para viabilizar o empreendimento.

Os poderes públicos esperam que, em contrapartida, a estatal adie a licitação prevista de sondas de perfuração, para que o Inhaúma possa se preparar para a disputa. As instalações, embora consideradas uma das melhores do país, precisariam, segundo estimativas, de um investimento de até R$ 200 milhões para sua modernização.

A volta do estaleiro chega num momento em que se confirma cada vez mais a reconstrução da indústria naval brasileira. Depois de seu esvaziamento nas décadas de 80 e 90, com a perda de espaço para competidores estrangeiros, sobretudo da Ásia, o setor revive seus melhores dias.

Se em 2000, a indústria naval brasileira empregava apenas 2 mil trabalhadores, atualmente já há mais de 45 mil profissionais atuando no setor, um número próximo aos 50 mil empregos que gerava no início da década de 1970.

A ascensão da indústria naval, deve-se reconhecer, se dá, principalmente, graças a uma acertada visão da administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de investir numa área de infraestrutura, estratégica para o desenvolvimento do país, que ganhou ainda mais importância depois das descobertas do pré-sal.

Inserido dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef) da Transpetro é um dos principais responsáveis pelo renascimento da indústria naval, em virtude do volume de encomendas feitas pela estatal.

Em suas duas primeiras etapas, o Promef prevê a construção de 49 navios no país, sendo que 46 foram licitados (os outros três estão em fase final de licitação) e 38 estão contratados. A primeira destas encomendas foi entregue na semana passada, em Pernambuco, num marco da revitalização da indústria naval. Com 274 metros de comprimento (duas vezes e meia maior que o campo do Maracanã), o João Cândido nome em homenagem ao marinheiro negro que comandou a Revolta da Chibata, em 1910 é o primeiro navio petroleiro construído no Brasil em 13 anos. A segunda grande embarcação está prevista para ser lançada em junho, em Niterói.

Com estas encomendas, o Promef tem estimulado a criação de empregos (o programa já é responsável por 15 mil deles) e a modernização da indústria, que têm acesso ao financiamento do Fundo de Marinha Mercante e do BNDES.

É o exemplo de que um Estado forte pode induzir o crescimento, sem esperar, como já ocorreu, que a mão nem sempre tão invisível do mercado enfraqueça a indústria nacional.