Os cuidados com a insuficiência cardíaca

Evandro Tinoco Mesquita, Jornal do Brasil

RIO - Atualmente cerca de 15 milhões de pessoas sofrem de insuficiência cardíaca (IC) em todo mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS ) colocou a IC como uma das três prioridades em saúde pública para os próximos anos. Só nos EUA, ocorrem 700 mil novos casos a cada ano, e há cerca de 4,7 milhões de pessoas com IC. Esta é uma nova e crescente pandemia que necessita de atenção de todos os profissionais de saúde.

Embora esta doença se equipare ao câncer e supere a Aids em número de mortes, os recursos aplicados na pesquisa de novas terapias não passam de 25% de verbas destinadas à pesquisa do câncer nos EUA.

A IC é uma deterioração progressiva da capacidade de bombeamento do coração e ou dificuldade de enchimento dos ventrículos e pode ter uma ligação estreita com fatores cada vez mais presentes no cotidiano do homem urbano, como por exemplo, doença coronária obstrutiva, obesidade, sedentarismo, colesterol elevado, diabetes melitus, hipertensão arterial, viroses e uso de drogas lícitas (álcool) e ilícitas.

Apesar de avanços científicos e tecnológicos e de melhores condições socioeconômicas terem possibilitado o aumento da longevidade da população em geral e dos cardiopatas, tem-se registrados aumento da incidência de IC no Brasil e no mundo.

Internação

Segundo dados do SUS, cerca de 398 mil pessoas foram internadas em 2001 com insuficiência cardíaca, das quais 26 mil morreram. Cerca de um terço dos internados no SUS com doenças cardíacas são portadores de IC. Além disso, entre os pacientes com mais de 60 anos, a IC é a principal causa de internação. A cardiopatia isquêmica e a hipertensão arterial são os principais fatores de risco nos pacientes com IC no Brasil.

Além dos altos custos hospitalares e do expressivo número de atendimentos de emergência, a IC provoca uma sensível perda da qualidade de vida, resultando muitas vezes em aposentadorias precoces e em altos custos socio-econômicos para o país.

A doença de Chagas é ainda um desafio enfrentado pelos profissionais de saúde que se dedicam à IC no nosso país. Embora não mais ocorra casos agudos de doença de Chagas, a forma crônica acarreta cerca de 5 mil óbitos por ano. Acredita-se que a IC causada pelo HIV será um novo problema, já que tem-se detectada agressão ao coração nos estágios iniciais da doença e tem sido identificada uma forma específica de cardiopatia dilatada associada ao HIV.

Além disso, a doença pode tornar-se um grave problema de saúde pública neste milênio, já que o Brasil tem o envelhecimento populacional mais rápido do mundo e as projeções indicam que em 2025 teremos a sexta maior população de idosos: cerca de 30 milhões de pessoas. O aumento do número de idosos deve resultar na multiplicação dos casos de IC, tornando uma epidemia com importante impacto econômico.

Recentes avanços da medicina, como novos medicamentos, corações artificiais, reabilitação cardíaca, marcapasso e desfibriladores implantáveis aumentam a qualidade de vida e a sobrevida com a doença.

O maior desafio, porém está em prevenir a IC em pessoas com hipertensão arterial não tratada, colesterol elevado e infarto do miocárdio. Nenhum desses problemas cardiovasculares está sob controle no Brasil e por isso é tão importante concentrar investimentos na difusão de informações e na educação da população leiga.

O Brasil tem que estar alerta para a IC e ter uma sociedade consciente do crescente problema médico e social que é a IC. Hoje sabemos que é possível uma melhor qualidade de vida para esses pacientes. A sociedade, os responsáveis pelo orçamento das áreas científica e tecnológica e os gestores de saúde necessitam de estabelecer um ambiente de cooperação para melhoria dos indicadores de IC.

Prevenir e tratar a IC é um desafio que envolve um somatório de ações integradas e equipes multiprofissionais bem preparadas, capazes de detectar os doentes de risco (prevenção primária) e os estágios iniciais da IC como a disfunção ventricular assintomática (prevenção secundária).

As clínicas de IC são centros especializados, onde cardiologistas, enfermeiras, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos e terapeutas ocupacionais acompanham e informam os portadores da doença e os familiares e buscam atuar em cooperação com médicos de família. Elas representam o novo paradigma no gerenciamento das formas avançadas de IC reduzindo os custos médicos e hospitalares.

Nelas, os pacientes seguem protocolos que se baseiam na melhor evidência científica disponível, e recebem orientação nutricional e esclarecimentos sobre doença, os fatores de descompensação, a medicação e novas terapias.

No estudo EPICA observamos, entre os pacientes internados nos hospitais públicos, elevada taxa de analfabetismo funcional e identificamos como principal fator de descompensação e hospitalização à falta de acesso a medicação. A cesta básica de medicamentos cardiovasculares é hoje uma necessidade para a população brasileira de baixa renda portadora de IC podendo evitar internações hospitalares. A boa notícia é que o programa médico de família tem melhorado os índices de controle da hipertensão arterial em muitas regiões do nosso país.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) está entrando em ação na luta para a melhoria dos cuidados na IC através da criação do Grupo de Estudo de Insuficiência Cardíaca (Geic) por meio da geração e diretrizes clínicas, disseminação de novos conhecimentos e divulgação entre os profissionais de saúde e para nossa população.

Recentemente a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) em colaboração com o Conselho Federal de Medicina e a Associação Médica Brasileira tem elaborado diretrizes assistenciais para os profissionais de saúde estarem implementando nos ambulatórios e nos hospitais, desta forma, contribuindo para reduzir a variabilidade da prática assistencial no Brasil. A Associação Nacional de Hospitais Privados (ANAHP) através do seu projeto Melhores Práticas Assistenciais tem implementado protocolos clínicos para o atendimento hospitalar da IC e levantados dados sobre os indicadores assistenciais dos pacientes atendidos com IC, sendo esta uma iniciativa pioneira sobre qualidade assistencial na área privada no Brasil. Em resumo, está sendo realizada no Brasil diretrizes envolvendo o governo, sociedades médicas, instituição hospitalar privados para o melhor enfrentamento da IC em nosso país.

Evandro Tinoco Mesquita é diretor clínico do Hospital Pró-Cardíaco.

Conferência realizada no Curso de Capacitação em Urgências e Emergências da Academia Nacional de Medicina e Secretaria de Estado de Saúde.