O dualismo

Tarcisio Padilha Junior *, Jornal do Brasil

RIO - Há mais de 20 anos, Vaclav Havel fazia votos pela existência de grupos de convicções: não para que estes legislassem ou impusessem os seus pontos de vista a todos, mas para que de fato agitassem o torpor recordando os princípios esquecidos, os valores menosprezados.

O pluralismo vive e prospera do confronto dessas convicções; ele vegeta e definha com o seu enfraquecimento e a sua degenerescência. Do pluralismo que caracteriza nossa sociedade até o relativismo que a ameaça vai só um passo, que se dá muito rapidamente hoje.

Tal relativismo pode explicar que se instale, sem ter sempre consciência disso, o dualismo. Uma coisa seria o universo denominado profano, o exercício de uma profissão, a investigação científica, o êxito nos negócios, a organização política, o desenvolvimento da cultura, ou mesmo a vida afetiva; a outra, o mundo da fé, da religião, das chamadas virtudes cristãs.

São muitos os que vivem com frequência essa repartição de papéis; paradoxalmente, tanto mais exigentes em relação aos clérigos ou à Igreja institucional quanto têm a preocupação fortemente proclamada de uma afirmação sem compromisso da sua missão religiosa.

O reverso desse dualismo vem do fato de se descobrir um belo dia que uma fé que só inspira alguns minutos da vida ou alguns setores limitados já não tem conteúdo e torna-se insignificante.

Deus revela-se raramente, ou excepcionalmente, de maneira imediata, e como que na vertical; realmente faz-se pressentir através das mediações das coisas, dos acontecimentos, dos homens. A descoberta daquilo que Deus espera de cada um não lhe é dada com clareza através de um único elemento, mas num vaivém, numa dualidade de elementos a ter em conta, não num dualismo que opõe e separa.

Desde os primórdios, a vida cristã foi apresentada como um caminho. Ela decorre necessariamente a várias velocidades, não sendo toda a gente chamada a caminhar com o mesmo passo. E supõe uma dupla polaridade: contemplação e ação, oração e caridade, esperança de Deus e atenção ao próximo, paixão do presente e aspiração ao futuro.

A fé só se torna pertinente e significativa no diálogo permanente com nossas tarefas humanas, ou na maneira de assumir nossa afetividade, nossas angústias e nossas esperanças. Só ao assumirmos nossas tarefas humanas é que experimentamos o que pode implicar a fé cristã.

A nossa vida cristã enraíza-se e ganha corpo a partir da nossa humanidade recebida numa linguagem, em tradições culturais. Não nos obriga a alijar esse legado para entrar num sistema já feito e exterior de obrigações e de práticas.

Tal liberdade assusta cada um de nós, porque ninguém sabe até onde ela pode conduzi-lo. De fato é mais simples, mais tranquilizador dobrar-se aos costumes da tribo, aos hábitos do grupo.

* Engenheiro