Um vulcão mergulha a Europa no caos

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Jornal do Brasil

RIO - Nestes últimos meses, ocorreu uma onda jamais vista de terremotos, furacões, inundações e alterações climáticas que deixou profundas marcas no meio ambiente. O último foi a erupção do vulcão Eyjafjöll (que em português significa montanhas das ilhas ), situado no sul da Islândia, no pico de uma montanha de 1.666 metros acima do nível do mar, recoberta pela geleira Eyjafjallajökull (vocábulo islandês que em português significa geleira das montanhas das ilhas ). Este vulcão foi relativamente pouco ativo, pois a sua história registra somente quatro erupções que lhe foram atribuídas: a última ocorreu de 19 de dezembro de 1821 a 1° de janeiro de 1823. Assim, após um período de 187 anos o vulcão acordou em 2010.

Esta ultima erupção foi precedida por uma importante crise sísmica detectada pelos sismógrafos que já haviam registrado 860 terremotos entre 1991 e dezembro de 2009, ou seja, 48 tremores por ano. Durante o período, três episódios sucessivos ocorreram próximos à superfície; dois deles provocaram deformidades na estrutura do vulcão. Os estudos dos focos dos terremotos indicaram claramente que o magma atravessou a crosta sob o flanco norte do Eyjafjöll. Nas horas que precederam à erupção, o hipocentro do terremoto estava perto da superfície. Os sismos foram acompanhados por um tremor de alguns minutos antes da ejeção de lava, a partir das 22h30 do dia 20 de março. O magma que alimenta esta erupção vem do magmatismo do ponto quente que afeta o subsolo da Islândia. A atividade do magma desse vulcão foi detectada entre dezembro de 2009 e 20 de março de 2010, quando a saída de lava no Fimmvörðuháls (desfiladeiro livre de gelo localizado ao sul da Islândia, entre as geleiras de Eyjafjallajökull, a oeste, e Mýrdalsjökull, a leste). O magma estagnou em soleiras localizadas entre três e seis quilômetros de profundidade, aproximadamente, em relação ao nível do mar ou entre cinco e oito quilômetros de profundidade abaixo do cume do vulcão. Este depósito de magma em profundidade provocou o inchaço do vulcão, que se traduziu por um aumento da pressão interna, nas duas chaminés que conduzem o magma até a superfície. Um desses ramos se apresentou muito ativo durante a primeira fase da erupção como ocorreu quando o Fimmvörðuháls esteve ativo de 20 de março até 12 de abril. O outro foi ativado desde o início da segunda fase eruptiva que começou em 14 de abril, mas o magma se encontrava em condições diferentes da primeira etapa.

Eyjafjöll é um vulcão de 700 mil anos de idade. No entanto, ele parece ter sido pouco ativo, com quatro erupções conhecidas que ocorreram por volta de 550, em 1612 e de 1821 a 1823. A erupção de 1612 parece ter sido compartilhada com a erupção do Katla nas proximidades, mas os registros da época informam principalmente do ultimo. A erupção de 1821-1823 cessou logo que o Katla entrou em erupção. Esses fatos sugerem que os dois sistemas são mecanicamente relacionados. O vulcão entrou em erupção de novo em 20 de março de 2010 à meia-noite, após uma crise sísmica, e novamente 14 de abril de 2010, levando ao fechamento da maior parte dos aeroportos europeus, devido à nuvem de cinzas presente na atmosfera. As cinzas vulcânicas trazidas pelos ventos são um grande perigo para as aeronaves. Por esse motivo, a segunda erupção causou um grande distúrbio no tráfego aéreo europeu. Enquanto algumas cinzas foram para áreas desabitadas na Islândia, a maioria foi levada por ventos do oeste, indo parar na Europa. As fumaças e cinzas reduzem a visibilidade e quando entram nas turbinas podem paralisar os motores do avião. Alguns vulcanólogos acreditam que o Katla mais violento que o Eyjafjoll poderá entrar em atividade nos próximos dias ou semanas.

Dentro do conceito de ecologia cósmica segundo o qual somos parte do megaecosistema que constitui o universo é possível demonstrar que a ausência por um longo intervalo de tempo de um fenômeno sísmico, numa determinada região, não significa que ele jamais vai se repetir de novo no mesmo sitio. Quanto mais tempo a natureza estiver calma, não devemos esquecê-la. Algo está sendo preparado. Na realidade, os grandes arquitetos das nossas paisagens terrestres são as forças acumuladas e desencadeadas pelos sismos que constroem e destroem todos os relevos do nosso planeta.

Diante das últimas catástrofes naturais, a única saída capaz de reduzir o número de vítimas e os prejuízos materiais: será a decisão dos governos em aplicar mais recursos nas pesquisas em geofísica (pouco conhecemos do núcleo do nosso planeta) e para as alterações climáticas em meteorologia.

É vital continuar realizando as observações do nosso planeta na fronteira das técnicas existentes, procurando conhecer e compreender o funcionamento das falhas tectônicas e processos climáticos. À medida que melhor o conhecemos mais confiáveis será o sistema de alerta que deverá ser constantemente alimentado e aperfeiçoado pela pesquisa. Nenhum domínio exige um apoio e um investimento cada vez maior por um período mais longo do que estes setores de pesquisa.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, além de astrônomo, é escritor e autor de mais de 85 livros, dentre eles Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica.