Em defesa de Paula Parisot

Felipe Pena, Jornal do Brasil

RIO - (No mês passado, a escritora Paula Parisot ficou confinada durante sete dias em um cubículo de vidro montado numa livraria de São Paulo. O cubo simulava a clínica de repouso descrita no romance Gonzos e Parafusos , recém-lançado pela editora Leya.)

Eu sei, Paula, você já é crescida e sabe se defender sozinha. Não precisa de meus afagos nem da minha solidariedade. Muito menos destas linhas tortas e analfabetas. Mas me senti na obrigação de escrevê-las.

Quando você se trancou naquele aquário de vidro para divulgar seu livro novo, muitos de meus colegas escritores, alguns deles amigos queridos cujo trabalho admiro, criticaram a sua performance e a chamaram de marqueteira. E só porque o Rubem Fonseca apareceu para uma visita destilaram insultos contra um de nossos maiores escritores em atividade. Uma aprendiz de novelas chegou a afirmar que era um vexame total. Outra, a quem não conheço, disse que era um mico público. Quanta maldade! Quanto preconceito!

Perdoe-os, Paula. Eles não sabem o que dizem. Em todas as outras artes, as performances de divulgação são respeitadas, até mesmo admiradas. Por que elas seriam proibidas na literatura? Nnguém imagina um cineasta criticando o Almodóvar só porque ele usou uma saia durante um evento social. Ou o Caetano Veloso tomando porrada na mídia porque apareceu de surpresa em uma rua da periferia. Alguém criticou o pianista Nelson Freire por deixar um cineasta invadir seus ensaios e apresentações para fazer um documentário ao estilo reality show?

Eles dirão que isso é muito diferente, que os artistas em questão não precisam de marketing, já estão consolidados. Mas não deveria ser exatamente o contrário? Mesmo que eles não saibam que, além de escritora, você também é atriz, não deveriam incentivar sua luta para chegar aos leitores? Não deveriam brigar para que a literatura brasileira tivesse o mesmo espaço na imprensa?

O problema, Paula, é que você ganhou destaque na Folha e no Jornal do Brasil. E o argumento deles para não confessar a inveja é que o destaque foi pela performance, não pelo texto. Mas o objetivo não era exatamente o de fazer o público chegar ao texto? E vale mais uma pergunta: esses escritores leram o seu livro?

Então saiba que ele é muito potente, tanto no trabalho da linguagem quanto no cruzamento de níveis narrativos e de ideias voltadas para a filosofia e a psicanálise. E essa opinião não é minha, é de uma professora de literatura que entrou na discussão em uma rede social.

O mais irônico é que, no mesmo dia em que tomei contato com essa discussão, fui ao lançamento de uma excelente coletânea de contos baseada em músicas de um ícone do rock nacional. E lá estavam alguns dos autores que criticaram a sua performance. Sabe o que eles faziam? Cantavam as músicas dos contos em um improvisado karaokê. Diga-me, Paula: isso não é performance?

O ensaísta búlgaro Tzvetan Todorov afirma que o principal risco que ronda a literatura é o de não participar mais da vida cultural do cidadão. E isso acontece, segundo ele, porque os escritores não se preocupam mais com a afetividade e o prazer do leitor, limitando-se apenas a aspirar ao elogio da crítica.

Perdoe-nos, Paula. Nós é que estamos numa redoma de vidro.

Além de jornalista e escritor, Felipe Pena é psicólogo, doutor em literatura pela PUC, pós-doutor pela Sorbonne III, professor da Universidade Federal Fluminense e autor de dez livros, entre eles o romance O marido perfeito mora ao lado (ed. Record, 2010).