Dia marcado pela desordem pública

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Um evento que misturou música e religião, ontem, na Enseada de Botafogo, transformou o trânsito da cidade num feirado em que tudo deveria estar mais tranquilo em um verdadeiro inferno, muito mais insuportável do que se vê nos dias úteis. A partir da Praia de Botafogo, os engarrafamentos atingiam, para todos os lados da cidade, Copacabana, Humaitá, Laranjeiras, Rio Comprido, Centro, Gamboa, alcançando até a Linha Vermelha. De nada adianta a prefeitura pedir desculpa e prometer que eventos semelhantes não serão permitidos. É preciso punir exemplarmente os responsáveis.

A soma de três fatores foi decisiva para o nó no trânsito: 1) a natureza do evento, que provocou o afluxo de muitas pessoas de cidades vizinhas, numa quantidade de ônibus para a qual não há estacionamento que dê conta; 2) a má distribuição da Guarda Municipal, que, independentemente do número de participantes do esquema de tráfego, concentrou-se nas proximidades do evento; e 3) a localização, num ponto absolutamente nevrálgico no fluxo de veículos entre várias regiões importantes da cidade.

Sobre o primeiro: ou faltou a organização do evento prever o número de ônibus que trariam os fieis , ou faltou competência à Secretaria Municipal de Ordem Pública para concentrar os veículos em algum ponto. Ocorreu que havia ônibus estacionados em todos os bairros no entorno de Botafogo, sempre em número acima de cinco ou seis. Não há trânsito que suporte.

Sobre o segundo: não é a primeira vez que a guarda municipal demonstra dificuldades em antecipar problemas ou responder aos mesmos de forma minimamente rápida. Quando da última enchente na cidade, bairros como Rio Comprido e Tijuca tiveram seu trânsito organizado pelos próprios motoristas. Ontem, especialmente na Glória, Catete e Laranjeiras, o trânsito poderia fluir flagrantemente melhor se houvesse um único controlador de trânsito liberando o tráfego pesado em cruzamentos onde o sinal da rua principal ficava fechado sem que qualquer veículo passasse na transversal.

Finalmente o terceiro: fazer um evento dessa magnitude na Enseada de Botafogo é clamar por problemas. Mesmo num feriado, ali desemboca trânsito intenso vindo de Copacabana, Humaitá (e deste Lagoa e Barra), Laranjeiras, Catete e Flamengo (e deste quase todo o proveniente da Zona Norte e Ponte Rio-Niterói). O desenho do local é um arco, que torna sua extensão curta. Além disso, a areia está próxima às pistas. É um caso diferente do vizinho Aterro, onde o comprimento da praia é muito superior, e ainda há o Parque do Flamengo para diluir um público acima do calculado.

Parte-se do princípio de que nenhuma das peças desse intrincado tabuleiro tenha errado de maneira proposital, ou por desleixo. Fica claro, contudo, que faltou comunicação entre organizadores e poder público para interligar as ações e preparar um plano contingencial. Se não houve danos à integridade física de alguém (a não ser o estresse de quem tentava circular de carro ou ônibus), os litros de combustível queimados inutilmente e os prejuízos de quem perdeu compromissos são imensuráveis.

Se ontem o Centro e a Zona Sul fossem visitados por delegações da Fifa ou do Comitê Olímpico Internacional, perigava o Rio deixar de ser uma das sede da Copa do Mundo de 2014 ou perder a Olimpíada de 2016.