O PSDB do PT

José Luiz Niemeyer dos Santos, Jornal do Brasil

RIO - Dizem que no ano de 1993, na comarca de São Bernardo do Campo, o até aquele momento pretendente à Presidência da República, sociólogo, senador e ministro Fernando Henrique Cardoso, procurou o também candidato Luis Inácio Lula da Silva, metalúrgico, presidente e fundador do Partido dos Trabalhadores, para uma conversa franca.

Fernando Henrique teria proposto uma aliança entre PSDB e o PT para as eleições de 1994.

FHC com Lula de vice. Seria a chapa dos sonhos para sarar as feridas dos anos de ditadura, anos de risco institucional pós-Tancredo e anos Collor.

Também é falado por aí que Lula não aceitou. Alegou que naquele momento seu posicionamento nas pesquisas era mais favorável à sua candidatura como cabeça de chapa.

O saudoso governador tucano Mário Covas também sempre entendeu e defendeu a necessidade de aproximação do PSDB com o PT.

Esta é uma estratégia política interessante desenvolvida, hoje, por lideranças como Aécio Neves.

Neto de quem foi Aécio sabe que o fio condutor da política se esgarça fácil, fácil. É preciso mantê-lo rígido, mas sem romper.

Se o conflito é elemento inerente à política, a busca pelo consenso é a célula embrionária do processo político. Os contextos de poder, se não são plenos, detestam o vácuo.

Uma aliança na perspectiva federal entre PSDB e PT seria positiva em duas frentes.

Na perspectiva partidária e institucional, formar-se-ia uma base de sustentação parlamentar invejável para um regime de coalizão presidencialista como o brasileiro.

Haveria uma ordem política mínima para ser operacionalizada; e esta fortaleceria os vínculos de todo o sistema político nacional.

No campo ideológico, algumas linhas mestras seriam mais definidas.

Teríamos um programa social-democrata versus um ideário libertário-social.

Maior ou menor interferência econômica e controle social por parte do Estado. Basicamente, este ajuste fino. Nada mais do que isto, que já se configura como uma tarefa hercúlea, muito complexa, todavia rica para o aprofundamento da vida republicana e democrática.

Sobre este segundo ponto ainda teríamos definida, finalmente, uma agenda comum de partidos e de grupos de pressão importantes dentro do espectro sócio-político: aqueles representantes, respectivamente, de uma centro-direita e aqueles que se colocam como mais conservadores.

Aqueles muito radicais , à direita ou à esquerda, teriam que se ajustar às circunstâncias e desconstruir o discurso; deles mesmos ou dos outros. Isto é fazer política.

Esta concertación à brasileira não irá ocorrer no curto prazo.

Tal aproximação entre os dois grandes partidos políticos pós-regime militar ainda será gestada, sendo que, no Brasil, o peso dos agentes ainda neutraliza o avanço dos processos; a politics continuará prevalecendo sobre a policy

Todavia há uma nova variável dada: um potente ciclo sustentado de crescimento econômico, de inclusão social direta e de inserção internacional soberana.

Assim, pensar o grande corolário das forças políticas que administrarão o país nas próximas décadas começará a ser considerado um plano estratégico, sim.

Organizar este contexto institucional exigirá maior comprometimento dos agentes e formalização dos processos de representação e de participação política.

José Luiz Niemeyer é coordenador da graduação em relações internacionais do Ibmec/RJ e Ibmec/MG.