Sucesso interrompido

Ivan Postigo* economista, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Um estudo do mercado e da história empresarial nos mostra uma série de fracassos que poderiam ter sido evitados e outros tantos que estão a caminho e não serão. A pergunta seria: é possível determinar com certeza as empresas que desaparecerão analisadas suas condições econômicas e financeiras? Sim, consideradas as condições atuais, só sobreviverão se houver injeção de capital, pois já esgotaram as oportunidades de captação de recursos junto aos fornecedores, instituições financeiras e de atraso de impostos.

Uma empresa que tem uma dívida de curto prazo equivalente a mais de três meses de faturamento precisa de um plano de reação muito agressivo. Ainda que pudesse separar 10% do resultado líquido para pagamento do principal da dívida, não sairia dessa situação em menos de três anos. Claro, é possível alongar a dívida, mas ainda que a amortização fosse feita com 5% do resultado líquido, estaria comprometendo os próximos seis anos da empresa. Nessas condições, como crescer, construir o futuro? Futuro não só da empresa, mas também dos gestores. Para chegar numa situação como essa, a empresa não precisou de pouco tempo, está em crise de gestão há anos, ou tenha investido o capital de giro em equipamentos.

Não importa, dívida é dívida e compromete o futuro. Gestão empresarial é um processo simples e óbvio. Por que gestores perderiam o controle por tanto tempo? Imagine uma caixa d'água que todos os dias têm que ser abastecida com baldes. Como os gestores vêem que não falta água no riacho, um dia abastecem a caixa, outros não. Com o tempo, param de olhar o nível e trazem alguns poucos baldes cheios. Um dia vão ao riacho e o encontram seco e para espanto de todos a água na caixa está bem abaixo do nível de reserva. Na primeira seca, o estrago está feito. E o que tinham que fazer? Apenas manter a caixa cheia sempre!

Considere que reservatório da empresa é o saldo bancário e as contas a receber. O balde, os clientes, e a água, o faturamento. Não é difícil encontrar empresas que, numa simples análise da carteira de clientes, percebemos que muitos não compram há quase ou mais de um ano e ninguém percebeu. Isso significa que não há um responsável colocando as mãos naquele balde e em tantos outros. A quantidade significativa de clientes em carteira mostra que a empresa por um determinado período apresentou crescimento, vinha obtendo sucesso, mas este foi interrompido. Por que gestores perderiam o pé do processo se vinham administrando bem a empresa? A razão é simples: Nenhum de nós tem super-poderes. Gestores arrojados trabalham no limite de suas competências, mas nem todos têm disposição para aceitar que precisam de ajuda.

Ajuda em gestão é adicionar competências. Isso faz parte do conceito de administração, mas nem sempre das regras de conduta pessoal. Gestor é técnico e jogador, e um número significativo encara a procura por ajuda com preocupação e como uma demonstração de fragilidade. As consequências são muito sérias, pois, quando não destroem a empresa, tornam o futuro incerto e expõem grupos enormes de pessoas às condições de meros sobreviventes. As resistências dos gestores podem ser demonstradas de muitas formas. Um exemplo: um dia um gestor me disse: Por que você acha que pode conseguir recursos mais baratos do que eu que sou empresário? Ora, simples! Levantamos 100% do capital de giro que ele precisava no BNDES. Eles não tinham experiência e consideravam esse meio um sonho distante.