Novo ciclo de aperto monetário

Carlos Thadeu de Freitas Gomes, Jornal do Brasil

RIO - O principal instrumento de política monetária, a taxa de juros Selic definida em suas operações de mercado aberto, iniciou o ano de 2009 em processo de queda. Apesar do Banco Central do Brasil ter interferido prontamente para garantir a liquidez, principalmente através da liberação do compulsório, e reduzir a volatilidade cambial, a autoridade monetária demorou a reconhecer os efeitos deflacionários da crise e relutou em baixar juros. Contudo, de janeiro a julho de 2009 promoveu cinco cortes na meta para a taxa Selic, que passou de 13,75% para 8,75% ao ano.

Pela primeira vez, desde a criação da Selic temos taxa de juros básica de um dígito. Isso só foi possível porque o país enfrentou a crise com condições de tomar medidas anticíclicas. Em crises passadas havia grande vulnerabilidade a choques externos. A dívida pública foi fortemente indexada ao dólar e a necessidade de financiamento externo, elevada. Entretanto, devido a vários anos de cenário externo favorável antes da crise, foi possível acumular reservas, se tornar credor em dólar e ampliar as exportações, reduzindo assim a vulnerabilidade externa do país.

Além da redução do passivo externo, a dinâmica da dívida pública federal anterior à crise era benigna. Ao contrário de crises passadas, a dívida líquida do setor público em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) caiu com a alta do dólar. Ao mesmo tempo, com a Selic em queda, os juros incidentes sobre a dívida voltaram a cair. Esses fatores tornaram menos nocivo o efeito da redução do superávit primário, proveniente da queda da arrecadação fiscal.

O nível atual de atividade econômica é importante, mas não determinante da política monetária no Brasil. Outros fatores exercem maiores implicações, como é o caso da fragilidade fiscal que se coloca no momento. A política fiscal que está sendo implementada no momento não acarretará grandes custos em termos de endividamento público, no curto prazo, num cenário de crescimento do PIB e juros reais baixos. Contudo, a expectativa de que há necessidade de um ajuste dos gastos públicos no futuro próximo, inviabilizado em ano de eleição, põe o peso da política fiscal sobre a política monetária. A expectativa de um maior déficit em transações correntes, exacerbado pelos gastos públicos, também é administrável no curto prazo, devido ao forte fluxo de investimentos externos recebido pelo país, mas também gera riscos no futuro.

A inflação, embora sob controle no curto prazo, já apresenta sinais de expectativas mais elevadas. Dúvidas sobre os efeitos do prolongamento da política fiscal além do necessário foram antecipadas, e o aumento da percepção de risco acarretou uma maior dispersão das expectativas para a inflação para 2010. Outra peça-chave para a condução da política monetária continua sendo a evolução da economia internacional. Alguns países já estão retirando os estímulos anticíclicos implantados durante a crise e começam a elevar suas taxas de juros. A condução das políticas monetárias pelo mundo, sobretudo nos Estados Unidos, pode afetar a liquidez abundante de hoje.

Carlos Thadeu de Freitas Gomes é chefe da Divisão Econômica da CNC.