Os 120 anos do feito de Paulo de Frontin

Wagner Victer, Jornal do Brasil

RIO - Vivemos em um país desigual em relação às comemorações. Somos muito generosos com os festejos de alguns temas e parcimoniosos com outros. Rememoramos vitórias de Copas do Mundo, milésimos gols, feriados de batalhas e conquistas que muitas vezes nem sabemos quais foram. Em caminho contrário não propagamos e, portanto, não lembramos de iniciativas e realizações que foram vitais para a existência de nossa comunidade.

No ano que passou, 2009, comemoramos 120 anos do episódio conhecido como a água em seis dias , protagonizado pelo engenheiro Paulo de Frontin. Foi uma luta titânica entre o homem e a natureza. Na ocasião, com apenas 29 anos, Frontin ficou famoso pelo seu êxito em conseguir levar água em apenas seis dias à então capital do Império, castigada pela seca e pela febre amarela no ano de 1889. A vitória de Paulo de Frontin foi resultado de um rigoroso planejamento de trabalho que garantiu a existência e a viabilização da nossa cidade como ela é concebida hoje em dia.

O memorável feito que tem todos os requisitos de uma fábula técnica com direito a um herói, um imperador e uma conquista idílica. Em março de 1889, o Rio de Janeiro sofria com uma epidemia de febre amarela e a falta d'água agrava a situação. Os chafarizes funcionavam precariamente há seis meses, e a água tinha um valor exorbitante. O Imperador Dom Pedro II, acossado pela intensa propaganda republicana, reuniu seu Conselho de Estado para estudar a situação. Após ouvir a opinião dos técnicos, o Imperador realizou uma concorrência para solucionar o problema de abastecimento.

Foram apresentadas três propostas de empreiteiras da ocasião que se propunham a resolver o grave problema de abastecimento de água na cidade em um prazo que variava entre 90 e 180 dias. Além disso, os valores cobrados para a execução dessas obras eram altos, a proposta mais barata era de 350 mil Contos de Reis. No entanto, no dia 16 de março de 1889, uma carta de um jovem professor da Escola Politécnica, sob pseudônimo "Ruy Barbosa", foi publicada no Diário de Notícias, propondo resolver o problema em seis dias a um custo módico de apenas 80 contos. No entanto, o " ilagre proposto não foi levado a sério.

Porém, em razão da situação crítica vivida pela capital do Império, um emissário do Conselheiro Rodrigo Silva, Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, foi enviado à redação do Diário de Notícias, órgão de imprensa oposicionista, para saber o nome do autor da milagrosa proposta. Foi, então, que surgiu a figura do notável engenheiro Paulo de Frontin. O jovem professor da Escola Politécnica se comprometia, em um prazo de seis dias, a aumentar em 12 milhões de litros dos rios o suprimento de água da cidade, mediante a captação nos rios Tinguá, Água Fria e outro na Serra do Mar, localizados há mais de 100 quilômetros da capital.

Dom Pedro II, o único que não duvidava da iniciativa de Frontin, chamou-lhe e os dois tiveram o seguinte diálogo. O Imperador perguntou: "O senhor cumpre o que escreveu hoje no Diário de Notícias?"

Sim! Dê-me o telégrafo e dois trens especiais da Estrada de Ferro Rio D´Ouro para transporte de matérias que, em 48 horas, estarei no local das operações com cinco mil machados, 10 mil enxadas e cinco mil trabalhadores, para no sexto dia dar água a população , respondeu o engenheiro.

Após ser indagado sobre o plano, Paulo de Frontin abriu uma cartolina e riscou a sua idéia, revelando córregos e rios até então desconhecidos. Solicitou mais uma vez, dois trens para o transporte de pessoal e material, e o telégrafo para poder se comunicar com os fornecedores e com o Governo Imperial.

O projeto foi cercado de grande polêmica. Muitos consideravam que o jovem engenheiro não tinha idéia que teria que derrubar matas densas e virgens para trazer água até a Caixa do Barrelão. Cinco horas após o encontro entre o Imperador e o engenheiro, se reuniram no Ministério os diretores das águas, lentes da Escola Politécnica, Clube de Engenharia e especialistas em hidráulica para discutir o projeto.

A oposição ao projeto Frontin foi geral. Todos os velhos professores consideravam impossível a sua realização em menos de seis meses. No entanto, o Imperador, que vivia uma situação política e social gravíssima, chamou Frontin e aceitou com reservas a intervenção. Embora oprimido pelas novas cláusulas, o jovem engenheiro assinou a proposta governamental.

No dia 18 de março de 1889, foi lavrado o contrato. Vinte e quatro horas depois, Paulo de Frontin estava à frente de um grande número de engenheiros e milhares de operários.

Finalmente, às 12 horas do dia 24 de março, Paulo de Frontin conseguiu não apenas trazer 12 milhões de litros d'água, mas sim 14 milhões de litros à população. O engenheiro foi carregado pela população do terminal da estrada de Ferro Rio D´Ouro, em São Cristóvão, até a rua do Ouvidor. A cidade foi tomada por festas, bailes, marchas e outras demonstrações comemorativas da água em seis dias . Durante semanas, a capital do Império comemorou o grande feito do jovem engenheiro.

O sucesso projeto Frontin demonstra a grandeza desse brasileiro e fluminense, que é patrono da Engenharia brasileira e presidente de honra do Clube de Engenharia. Paulo de Frontin foi professor da Escola Politécnica atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também foi diretor da Escola durante 15 anos, de 1915 a 1930, o que mais tempo permaneceu nessa função.

Paulo de Frontin também foi prefeito do Rio de Janeiro por um curto período em 1919. Na sua gestão, realizou um incrível conjunto de obras pela cidade, que englobou a construção das Avenidas Vieira Souto e Delfim Moreira, perfuração do túnel João Ricardo e alargamento da Avenida Atlântica.

Homenagem

Portanto, considero Paulo de Frontin o mais notável engenheiro que o nosso estado já produziu. Junto com André Rebouças, que era baiano, a meu ver, são os maiores engenheiros que já tivemos em nossa história. Sendo assim, como engenheiro e presidente de uma empresa sucessora de suas realizações na área de saneamento, na ocasião da inauguração da nova sede da Cedae, que agora iniciamos na Cidade Nova, também comemoraremos a instalação de uma estátua em homenagem a este notável engenheiro. Uma justa homenagem e reconhecimento ao trabalho visionário que este ilustre brasileiro realizou em prol de um Rio de Janeiro melhor.

Wagner Victer é presidente da Cedae.