Segurança pública: a nova UPP, uma ótima providência

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Próximo passo deveria ser a ocupação da outra ponta do Viaduto 31 de Março

Qualquer nova unidade de Polícia Pacificadora (UPP) que é criada merece o aplauso de todos. Por mais que ainda falte a elas o acompanhamento de outros serviços públicos como mostra hoje este JB com relação ao Morro Pavão-Pavãozinho a simples presença da polícia, e nela embutida a figura do governo, dá um mínimo de dignidade e inclui a comunidade mais intensamente no restante da sociedade. A bola da vez é a UPP do Morro da Providência, que deve entrar em funcionamento no próximo mês, e será a primeira das nove unidades previstas para este ano na Região Central, Portuária e Zona Norte.

Essa nova UPP é emblemática. Primeiro, pelo passado. Considerada oficialmente a primeira favela do Rio de Janeiro, o Morro da Providência, que fica atrás da Central do Brasil, foi batizado no fim do século 19 como Morro da Favela, daí também a origem do substantivo que se espalhou depois por outras comunidades carentes do Rio e do Brasil. Seus primeiros moradores eram ex-combatentes da Guerra de Canudos e se fixaram ali em 1897. Cerca de 10 mil soldados foram para o Rio com a promessa do governo de ganhar casas na então capital federal. Entraves políticos e burocráticos atrasaram a construção dos alojamentos, e os ex-combatentes passaram a ocupar provisoriamente as encostas do morro e por lá acabaram ficando.

Segundo, pelo presente e pelo futuro. Do alto da Providência, tem-se uma visão panorâmica de toda a Zona Portuária, e pode-se a partir dali dar um passo importantíssimo para a revitalização dessa parte da cidade, que há décadas convive apenas com abandono e degradação.

Qualquer primeiranista de sociologia sabe que a bandidagem e os barões do tráfico trabalham muito mais à vontade sem o Estado por perto. Qualquer iniciativa oficial que tire a população local de seu jugo encontrará resistência do crime. Assim, a revitalização planejada no trecho compreendido entre a Rodoviária Novo Rio e a Praça Mauá será muito mais fácil de ser concretizada se a UPP garantir, do alto da Providência, a segurança. O conjunto da obra nesse pedaço da cidade ficará ainda melhor se a prefeitura levar a cabo sua intenção de transferir para a Zona Portuária algumas competições olímpicas, que seriam disputadas em ginásios erguidos onde hoje ficam galpões abandonados.

O sucesso da unidade na Providência será, ainda, um incentivo à criação de outras numa região sensível e nevrálgica com relação à criminalidade, que fica na outra extremidade do Viaduto 31 de Março: o complexo formado pelas favelas da Mineira, Coroa, Catumbi e Baronesa no qual foi morto esta semana o maior distribuidor de drogas do Rio.

Assim como a partir do Morro da Providência foram se espalhando outras comunidades carentes, é de lá a sul e a norte que pode e deve ser espalhada a ação moralizante e socializante das UPPs. À menor sinalização de que a polícia militar ocuparia os morros da Tijuca, houve uma imediata valorização dos imóveis residenciais e comerciais do bairro mesmo que ainda não haja nenhuma no local. Mas o melhor efeito das UPPs não é a valorização de imóveis. É a valorização, impossível de medir ou quantificar, dos moradores do bairro.