O legado histórico de Barack Obama

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Justo no momento em que sua popularidade registra os índices mais baixos em 14 meses de governo, eis que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, conseguiu a vitória legislativa histórica, que perseguia desde o início do mandato, batalha após batalha. A reforma do sistema de saúde americano finalmente foi aprovada pela Câmara dos Representantes, numa votação apertada 219 a 212 que reflete como o assunto dividiu o país. Ontem, ao assinar a lei com os pontos considerados consensuais pela Câmara e pelo Senado, Obama fez história. Vários presidentes, há pelo menos cem anos, tentaram aprovar tal modelo universal de saúde, tido como socializante demais numa nação onde os valores liberais e o ideal de Estado mínimo são tão arraigados.

Desde que empunhou a bandeira da reforma que, diga-se, foi o carro-chefe da campanha de Hillary Clinton durante as prévias do Partido Democrata Obama passou a ser atacado de forma virulenta pelos setores conservadores. Foi chamado de comunista a nazista, tendo sua imagem em cartazes plasmada à de Hitler. Mas, à parte os ultrarradicais de direita, o tema despertou tanta polêmica que até entre os seus correligionários Barack Obama sofreu para obter os votos necessários de última hora.

Na batalha final, o presidente adiou uma viagem que faria à Ásia e conversou pessoalmente ou por telefone com quase uma centena de parlamentares. Nenhum republicano votou a favor da reforma, algo que, apesar de esperado, pelas discussões sobre a reforma, tem um caráter inédito em se tratando da aprovação de uma lei de grande repercussão. Entre os democratas, 34 votaram contra, seja por convicções pessoais, seja por temerem a retaliação do eleitorado nas eleições legislativas este ano. Segundo pesquisas de opinião, apenas 40% da população apoiam a mudança.

A maioria dos americanos já é coberta por planos de saúde oferecidos por empresas. Mas o acesso não é universal. O principal objetivo da reforma é incluir os cidadãos mais desassistidos, que vivem na franja social, e os que não são aceitos pelos critérios das seguradoras. Cerca de 32 milhões de pessoas serão beneficiadas, elevando para 94% a cobertura do sistema de saúde os restantes 6% correspondem aos 11 milhões de imigrantes ilegais que não foram contemplados.

Para convencer a sociedade sobre a importância da reforma, Barack Obama concentrou toda sua energia em defesa da causa e arriscou seu capital político, mesmo vendo sua popularidade minguar em razão da lenta recuperação da economia após a grande crise de 2008. Obama comprou uma briga com as empresas médicas privadas no país. Bradou que elas, na última década, tiveram lucros exorbitantes devido a reajustes acima da inflação dos planos de saúde e porque fazem de tudo para se livrar dos custos daqueles que mais necessitam de atendimento, excluindo doenças preexistentes do contrato o que passa a ser proibido com a nova lei.

O discurso, porém, não dobrou aqueles que criticaram o alto custo da reforma quase US$ 1 trilhão em uma década e o aumento de impostos para as famílias de renda mais elevada. Outro ponto polêmico é o caráter obrigatório, que prevê até multa para os cidadãos e/ou empresas que não contratarem seguro de saúde, o que difere o modelo, ao estilo próprio americano, do welfare state europeu, mas também o aproxima, pela preocupação com a inclusão e o bem-estar social.