Lei Seca merece muito ser festejada

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Quase simultaneamente à divulgação do Estudo do impacto do uso de bebidas alcoólicas e outras substâncias psicoativas no trânsito brasileiro, ontem à tarde, o Rio comemora um ano da operação conhecida como Lei Seca. Enquanto em outros estados o número de mortes só aumenta e o máximo que se consegue é estudar as causas da carnificina ao volante, no Rio foram poupadas em um ano em torno de 4.500 vidas, segundo cálculos dos coordenadores da operação.

Pesquisas são sempre válidas, mas muitas vezes apenas quantificam informações que a experiência já nos dera. É o caso da que aponta relação entre o consumo de drogas e os acidentes de trânsito, combinação que nossos avós já consideravam letal. Melhor do que a pesquisa é a ação. Foi o caminho seguido pelo Rio.

Os números são significativos: mais de 175 mil abordagens, com aplicação de 35 mil multas. Quase tanto como o número de vidas cuja perda deixamos de lamentar, é louvável na Lei Seca seu espírito e sua orientação. As blitzes são bem sinalizadas, o que mostra que, mais do que reprimir, o que se quer é conscientizar os motoristas. A utilização de cadeirantes que foram vítimas de acidentes de trânsito na abordagem dos veículos é também louvável. Eles orientam com experiência própria, o que dá sempre mais crédito à operação.

Outro fator importante na execução da Lei Seca ao longo do ano foi o fato de ela não ter sido interrompida, nem diminuído sua frequência. Quando foi lançada, não faltaram comentários, especialmente entre os jovens, de aquilo era fogo de palha , que logo ela seria suspensa, até por possíveis pressões de empresários da noite, que teriam e, de fato, tiveram, com a redução do consumo de bebidas alcoólicas. Não foi suspensa, nem diminuída.

E assim deve continuar. Ninguém deve esperar que essa operação, ou qualquer outra até mais eficaz, vá acabar em definitivo com as mortes no trânsito. Infelizmente, faz parte da personalidade de muitos jovens a necessidade de correr riscos ou demonstrar valentia ao volante para impressionar os amigos ou as namoradas.

Tampouco devemos nos dar por satisfeitos apenas com a Lei Seca. Outras ações podem e devem acompanhá-la no Brasil bem mais, mas no Rio também. Um exemplo é o uso dos radares e dos pardais, que no modelo de hoje nada mais são do que componentes de uma indústria muito lucrativa para o estado, mas que não visa salvar vidas. O que salva vidas são pardais com grandes avisos alertando para sua presença como, por exemplo, o que há na saída do Túnel Rebouças quando desce para a Avenida Paulo de Frontin. Ali é um caso típico de fiscalização eletrônica bem feita, pois reduziu a quase zero o número de acidentes num local que era praticamente um cemitério. Pardal escondido não impele o motorista a reduzir a velocidade, só faz com que ele pague a multa, se antes não se espatifar num poste ou contra outro veículo. A lógica deve ser a de que, mais importante do que pagar, o motorista reduza a velocidade. Se, mesmo avisado, ele optar por continuar correndo, aí deve ser punido com a multa.

Mas, apesar desses pequenos pesares, o Rio tem mais é que festejar a Lei Seca e torcer por muitos outros aniversários da mesma.