artigo: A verdade e o despertar da consciência

Ivan Postigo, Jornal do Brasil

RIO -

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Uma questão complexa em gestão empresarial é descobrir a realidade. Outra é aceitá-la! Pesquisas podem sofrer influências diversas, inclusive interpretativas. Isso lhe parece estranho? Vamos a uma pequena reflexão. Você vai ao mercado e começa a coletar dados sobre seus produtos, sobre concorrentes e expectativas dos consumidores. Reúne todos e prepara um relatório. Em seguida chama as equipes, apresenta o trabalho e pede suas opiniões. Alguns podem considerar sua conclusão uma onda, enquanto outros podem considerar uma tendência.

'Note que o automóvel foi considerado uma moda passageira, uma onda, pois na opinião daquele crítico o cavalo havia chegado para ficar, uma tendência. Não foram poucas também as pessoas que criticaram a televisão, considerada uma onda, acreditando que jamais substituiria o rádio, uma tendência. Um fator determinante para o sucesso é descobrir e encarar a realidade, examinado os fatos e isentando-o dos sentimentos e do nosso próprio ego. A compreensão e aceitação da realidade é a base para definição dos nossos objetivos. A realidade nos diz onde estamos, para onde poderemos ir e o que é necessário para que cheguemos lá.

Vejo com frequência diretores e gerentes tratando de assuntos operacionais, sem se envolverem com a criação do futuro. Produzem com isso um estado ocupacional de forma a dar relevância ao dia, não observando essa realidade. Convivi com um gestor que sempre se dizia ocupado demais, então desenvolvemos ações para delegação esvaziando suas atribuições. Você pode me perguntar: Demorou a acontecer, foi muito difícil implementar as medidas? Que nada, simples e rápido. Basta estabelecer o que é realmente necessário, como será feito e delegar a quem tem competência. Trabalha-se menos, produze-se mais e melhor. Bom, mas qual o resultado disso? Novas queixas, ouvi durante algum tempo: - Não sei o que fazer com o tempo que você me arrumou! Ok, agora sim tínhamos uma realidade.

Poderíamos debater o futuro e verificar se a criação deste poderia e deveria ficar em suas mãos. Claro que nas datas em que os orçamentos anuais são elaborados há reflexão sobre o destino dos negócios, mas este tempo não ultrapassa três meses e o que é disponibilizado são projeções. Grande parte destas se faz acrescentando um percentual de crescimento sobre os resultados do ano anterior. Conheço empresas que todos os anos, nessa época, tiram das gavetas projetos que lá estão há cinco, dez anos. É fato indiscutível que não foram e não serão realizados. Ainda que aconteçam, temos que torcer muito pelo sucesso, pois estão defasados demais. Gestores têm dificuldades de parar e principalmente encarar os fatos, com isso seguem em frente, enquanto puderem, até que num determinado momento não existam mais opções.

Empresas lançam produtos e novas marcas, sem qualquer comprometimento com sua propagação, para substituir ou complementar outros negócios que não vêm dando certo. Continuarão não dando, essa é a realidade! É verdade que gerar recursos para propaganda não é fácil, as margens são sempre espremidas, por essa razão quem não dispõe de farto caixa tem que pensar, estudar muito mais. Colocar a inteligência a serviço da organização, aplicando o pouco que tem de forma estratégica e consistente.

A realidade nem sempre é como gostaríamos. Ela é como é. O que vamos fazer com essa informação é que fará a diferença. Ao aceitá-la tomamos um choque de realidade que faz despertar nossa consciência. Há algum tempo apresentei uma proposta para uma empresa. Não desenvolvemos o projeto, uma vez que os gestores disseram que haviam mudado os planos. Algum tempo depois nos disse que os gestores haviam tentado implementar o plano por conta, evitando o investimento, mas que não dera certo. A verdade é que não haviam encarado a realidade e sem o despertar da consciência é pouco provável que o projeto tivesse realmente sucesso conduzido daquela forma.

* economista