Será que o Rio vive outro bota-abaixo?

Antonio Edmilson M. Rodrigues , Jornal do Brasil

RIO - Em 1903, o Rio foi tomado por pó e pedra. Era o início da Reforma Passos que revirava o coração da cidade para abri-lo ao futuro. Esse processo de modernização da cidade foi tão marcante que até hoje teses universitárias e pesquisas discutem a ação do prefeito empreendedor. Se ao longo do século 20, as avaliações sobre Passos foram negativas, ao longo do seu final e no início do século 21, as coisas mudaram. Abriu-se uma nova perspectiva de avaliação da Reforma Passos e ela passou a ser discutida até mesmo colocando-se em dúvida a tradicional versão de que o Rio imitava Paris e que ele seria o Haussmann tropical.

Hoje, em 2010, observa-se um novo bota-abaixo no Centro do Rio. Como o anterior, visando ao futuro; como o anterior, movimentando o coração da cidade e mobilizando a sociedade. A pergunta, então, seria o que mudou entre uma reforma e outra? À primeira vista, a própria denominação de reforma. Se, em 1903, havia uma diretriz clara de mudança na cidade, embora os especialistas tenham imaginado um Passos apenas agindo sobre o Centro, hoje o que se descortina é uma intervenção localizada. Talvez, porque a cidade tenha assistido, de 1903 para cá, alterações substanciais em sua paisagem. Deixamos de pensar a cidade pela cultura e pela política, para pensá-la como simples natureza, e isso fez com que o Rio fosse perdendo representatividade.

A cidade sempre foi forte, afinal, teve uma dupla fundação. Fomos franceses e portugueses para depois virarmos cariocas, e, isso nos fez bem. Talvez seja o que mantém a cidade. Mas além desse primeiro ponto, que outros diferenciariam as duas épocas reformistas?

Em 1903, se constrói uma referência que até hoje permanece no imaginário carioca. A Reforma Passos teve tal impacto que, até hoje, não dizemos que vamos ao Centro, todos nós vamos à cidade . Hoje, a intervenção atual se arrisca a colocar por terra essa marca realizando uma intervenção onde o bota-abaixo pode fazer desaparecer tradições culturais do Rio.

Concentrada na área do Porto, sua ação não deve apenas olhar para os lucros resultantes das construções para a modernização do mundo empresarial e financeiro, mas para a preservação das marcas culturais e para a união de tradição e modernidade numa cidade criativa e inteligente.

Como sou um otimista, acredito que ultrapassaremos mais uma guerra e continuaremos a entender que sempre iremos à cidade, e, nunca, ao Centro. Até porque, várias iniciativas de secretarias municipais vêm dando demonstrações de inteligência num trabalho de levantamentos que incluem sempre a identificação das manifestações culturais e, hoje, nós cariocas estamos mais atento à cidade, não somos mais apenas aqueles que não gostam de sinais fechados, mas continuamos bacanas.

Antonio Edmilson M. Rodrigues é historiador e professor (PUC-RJ e Uerj).