Processos na origem desse comportamento

Maria do Carmo Prado, Jornal do Brasil

RIO - De um modo geral, sujeitos que apresentam comportamento de violência extrema foram submetidos a interações particularmente defeituosas desde bebês. Eles viveram uma relação desastrosa com seus pais, alguns dos quais apresentando problemas psiquiátricos ou psicopáticos confirmados. Os pais de futuras crianças muito violentas nunca refletiram seu corpo ou seus estados psíquicos. Eles também não tinham constância emocional com o filho, que se via então confrontado com um meio imprevisível e ininteligível. Assim, não existem momentos onde cada qual mostra que compreendeu o estado emocional do outro.

Mas o que é mais característico ao nível familiar é a exposição da criança à violência e o fracasso da sedução primária. Crianças muito pequenas expostas a cenas de violência conjugal ficam muito perturbadas, mesmo que nunca tenham sido diretamente batidas. Um bebê cuja mãe é batida quando ela o carrega em seus braços se vê como um bebê batido, mas não apenas: vê-se também como o agressor todo-poderoso, para não soçobrar na angústia absoluta. Habitualmente, um genitor acha que seu bebê é o mais bonito do mundo. Ao contrário, as (futuras) crianças violentas não foram consideradas atraentes por seus pais.

No lugar da sedução normal, a criança maltratada viveu sentimentos de solidão intolerável e de terror. Ela se sente então má, imagina ser repugnante, como se sua simples existência criasse a violência de seus pais. Ao invés de se sentir sedutora, ela terá como modo de contato o agarramento violento e, às vezes, na adolescência, o sexo bruto, não integrado à ternura.

A perturbação profunda do esquema corporal, decorrente da inadequação das trocas corporais precoces, tem conseqüências sobre a capacidade de aprender. Além disso, as interações desastrosas que ele próprio viveu na sua primeira infância estão na base dos sentimentos que o impedem de desenvolver a menor identificação que seja com seu bebê.

O aspecto quantitativo, massivo da patologia interacional, envolvendo rejeição, violência, esquecimento da existência da criança, prima sobre o qualitativo, relativo a fantasias inconscientes suficientemente elaboradas projetadas sobre a criança. Se os pais não conseguem pensar suas questões e as que envolvem seu filho, do lado deste existirá a mesma impossibilidade. Então, na abordagem assistencial a essas crianças, faz-se necessário criar dispositivos incomuns para que o pensamento advenha. A primeira pergunta nessas situações "não é o que vai pensar esta criança?, mas ela vai pensar?."

Maria do Carmo Prado é professora da Uerj.