Busca do equilíbrio e relação promissora

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Num estudo divulgado no ano passado produzido pelo Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais (Nupri) da Universidade de São Paulo (USP) e intitulado Percepção das elites latino-americanas sobre as desigualdades sociais e a democracia , um dos resultados mais surpreendentes foi o retrato de uma elite da América Latina diferente da visão convencional. As classes dirigentes do continente estão historicamente associadas ao conservadorismo e supostamente ao pendor autoritário. No entanto, a pesquisa que entrevistou mais de 800 líderes em suas áreas de atuação (econômica, política, sindical, cultural, acadêmica e jornalística) em seis países (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, México e Venezuela) identificou uma nova elite. Numa espécie de mea-culpa, ela admite seu egoísmo e se mostra preocupada com a questão da pobreza e da desigualdade.

Coerente com o quadro geral foram as respostas dadas à pergunta sobre que modelo econômico seria o preferido na opinião dos entrevistados. O padrão escandinavo, o mais bem acabado de Estado de bem-estar social (welfare state), foi o mais citado (30,8%), à frente do modelo da União Europeia (26%) e dos Tigres Asiáticos (14,9%). O padrão superliberal americano obteve apenas 5,9% das preferências. Ficou atrás até da Aliança Bolivariana (formada por sete países, entre os quais Venezuela, Bolívia, Cuba e Nicarágua), com 8,1%.

É de se concluir, com estes resultados, que as elites latino-americanas concordam em um ponto: a virtude não está nos extremos. A experiência adquirida com os radicalismos do século 20 já deu lições suficientes de que o caminho não é nem pela ode ao mercado livre, desregulado, do lucro sem responsabilidades, nem pela adoção de modelos centralizadores e ineficientes, sem mecanismos de incentivo à competitividade. É preciso um meio termo entre as vantagens do capitalismo e do socialismo. Logo, é natural que as atenções se voltem para o sistema que mais se aproximou dessa conjunção.

Nesse sentido, é ainda mais pertinente a aproximação entre o Brasil e a Suécia emblema do Estado de bem-estar social. O estreitamento das relações dos dois países, contudo, longe de ser assimétrico, é em mão dupla. Os interesses são recíprocos, conforme pôde se verificar na reportagem publicada ontem pelo Jornal do Brasil, sobre a conferência O Brasil e o Futuro Biocombustíveis, Novas Energias, Ciência e Cultura, realizada entre os dias 15 e 17 de março. O evento, promovido pelo JB, pela Casa Brasil e pela Câmara de Comércio Brasileira na Suécia reuniu diversos especialistas brasileiros e suecos de diversas áreas.

Em vários âmbitos, da política passando pela economia e pela cultura, uma das conclusões da conferência é que tanto os brasileiros têm lições a aprender com a Suécia quanto os suecos têm o que priorizar em sua relação com o Brasil. Se o modelo de sociedade sueco é motivo de inspiração, o mercado brasileiro também é um chamariz. Há mais de 200 empresas do país nórdico espalhadas pelo Brasil. A Scania vende três vezes mais veículos pesados aqui do que na Alemanha, seu segundo mercado. A tecnologia do etanol e dos biocombustíveis interessa à nação conhecida por sua preocupação ambiental. Num cruzamento da tradição, da cultura e dos potenciais dos dois países, a relação é promissora.