Direitos humanos: a morte de um cadáver

Marcelo Douglas de Figueiredo Torres, Jornal do Brasil

RIO - O ministro das relações exteriores, Celso Amorim, orgulha-se de ter sido demitido da presidência da Embrafilme em 1982 por ter permitido que a estatal financiasse a produção do filme Pra Frente Brasil, do diretor Roberto Farias, que denunciava prisões arbitrárias, torturas e mortes nos porões da ditadura brasileira. O presidente Lula passou pelo constrangimento e a dor de não poder enterrar sua mãe em paz, uma vez que estava preso e teve que conseguir autorização para participar do velório. No governo do PT, entre inúmeros outros dirigentes importantes, pelo menos os poderosos ministros Dilma Rousseff e Franklin Martins sofreram a mão pesada da repressão militar.

Em 23 de fevereiro de 2010, morreu na prisão em Cuba, depois de uma greve de fome de mais de dois meses, o cidadão Orlando Zapata Tamayo, preso político que discordava do regime autoritário dos irmãos Castro. O presidente Lula e sua comitiva visitavam a ilha e se confraternizavam com as autoridades cubanas quando receberam a notícia da morte do oposicionista. Indagados pela omissão, trágica coincidência e silêncio diante de tão grave atentado aos direitos humanos, as autoridades brasileiras, especialmente o presidente, foram extremamente infelizes em seus comentários.

Ao contrário da ampla liberdade do jornalista ou analista, reconhece-se as altas responsabilidades de quem ocupa postos chaves na administração do Estado, que naturalmente deve tomar decisões complexas, institucionais e difíceis. Compreende-se também que é constitucional e diplomaticamente delicado interferir em assuntos internos de outros países, especialmente em visitas oficiais. Assim, é necessário reconhecer as dificuldades políticas em se realizar algo mais objetivo e contundente nessa seara.

Por outro lado, pelos históricos pessoais carregados de lutas, lágrimas e sofrimento, esperava-se maior sensibilidade do presidente e seus auxiliares em um assunto tão caro à cultura democrática ocidental. No entanto, descartando-se posicionamentos institucionais ostensivos, sempre haverá espaço para ações mais sutis, mas nem por isso menos eficientes. Nesse cenário, até mesmo uma simples palavra proferida de soslaio entre um gole de Whisky e uma baforada de charuto pode preservar a vida de algumas pessoas. Muito já se falou de como o exercício do poder transforma as pessoas e suas ideologias, de como faz terra arrasada dos princípios e das melhores intenções, enfim, a morte das idéias de que fala Machado de Assis. Nesse espaço, sinceramente, não se pretende adotar a posição arrogante de dono da verdade ou defensor privilegiado da ética e dos princípios. Reconheço que a realidade é sempre mais irracional, dúbia e complexa.

No entanto, de maneira ingênua até, sugiro apenas que as autoridades, pelo menos por alguns instantes, procurem desligar-se da alucinante e glamorosa rotina do exercício do poder. Nessa pausa, conviria refletir um pouco sobre o passado de cada um: os sonhos perdidos, as entranhas revolvidas e violadas, o sofrimento físico, o embaralhar das idéias, as convivências interrompidas... O espírito pode encher-se de esperança percebendo que resta ainda algum pequeno espaço para ações pessoais, palavras de apoio, gestos de boa vontade. Com o infeliz Zapata não tem mais jeito, entrou para a história. No entanto é importante destacar que essa pequena mudança de perspectiva pode ser a diferença entre a vida e a morte de muitas outras pessoas. PS: boa viagem ao Irã.

* Marcelo Douglas de Figueiredo Torres é historiador, cientista político, gestor governamental do Ministério do Planejamento, autor dos livros 'Para entender a política brasileira'; 'Estado, democracia e administração pública no Brasil'; 'Agências, Contratos e OSCIPS', todos pela FGV.