O Brasil vai bem, o Rio nem tanto

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - O crescimento desordenado de favelas tem sérias implicações ambientais

O estudo mundial divulgadoesta semana pela Divisão de Habitação das Nações Unidas (ONU-Habitat) sobre moradores em favelas mostra números positivos do ponto de vista nacional: de 2001 até hoje, foi apontada uma redução em torno de 5% no número de brasileiros que têm moradia numa favela. É uma pena que estejamos abaixo da média de progresso na América Latina nesse quesito a região teve uma queda de 19,5% entre os habitantes dessas comunidades em cidades grandes.

Mas quem mora no Rio percebe, visualmente, que a cidade pouco ou nada contribuiu com a melhoria nesse índice. Passa-se hoje pela entrada de algum túnel, ou próximo a algum morro com floresta. Se voltarmos aos mesmos lugares daqui a três meses, dificilmente nos mesmos já não haverá alguma casa de tijolo ou, se já havia, um aumento grande no número de moradores.

Um dos parâmetros da pesquisa confirma que a queda no número de moradores nem sempre significa a redução da quantidade de favelas. Nas comunidades onde foram realizados projetos de urbanização fez com que elas deixassem de ser catalogadas como favelas, alcançando o status de bairros. Essa é uma das explicações para os expressivos 227 milhões de pessoas que deixaram de ser moradores de favelas em todo o mundo e não parece que o planeta tenha prosperado para isso tudo, ainda mais se levarmos em consideração a grande crise econômica global de 2008/2009.

Tivesse o Rio de Janeiro uma política mais efetiva e enérgica no sentido de conter a expansão da ocupação dos morros da cidade, o Brasil certamente não amargaria uma colocação inferior à da Argentina (até aceitável) e, mais triste, da Colômbia e da República Dominicana. Argentina e Colômbia conseguiram uma queda de 40% na quantidade de habitantes em favelas, enquanto os dominicanos chegaram a uma redução na casa dos 30% com a devida ponderação de que a população brasileira é bem maior.

Há ainda alguns números no estudo da ONU que mostram a necessidade urgente da adoção de políticas mais racionais de natalidade. Como o que aponta ser maior o número total de pessoas que ainda vivem nas comunidades pobres em relação aos que deixaram de nelas viver um indício claro de taxas altas de nascimentos.

Não há poder público que consiga dar conta de todos os serviços necessários a uma comunidade com a aceleração quantitativa que elas têm no Rio. Além da qualidade de vida que se degrada, e dos riscos que advém das construções em locais que desafiam a engenharia e as noções mais básicas de equilíbrio, o crescimento desordenado de favelas tem graves implicações ambientais, já que se dá à custa do desmatamento dos morros.

O prefeito Eduardo Paes chegou a anunciar, no início de sua gestão, a construção de muros para impedir a expansão de favelas. Acabou sendo bombardeado por críticos que entenderam a solução como discriminatória, preconceituosa, etc. Se não for esse o caminho, é preciso que os profissionais de urbanismo se empenhem, e a questão da contenção da expansão de favelas passe a ser uma política de governo.

Só assim o Rio poderá, além de proporcionar uma vida digna a mais cariocas, contribuir para que, no próximo estudo da ONU, o Brasil esteja no topo da lista de redução da quantidade de moradores de favelas.