Falência múltipla dos transportes

André Esteves, Jornal do Brasil

RIO - Calor, atraso, falta de segurança, insatisfação. Tudo isso faz parte da rotina do carioca que utiliza o transporte coletivo urbano na cidade do Rio de Janeiro. Notícias de mau funcionamento do metrô, das barcas, dos trens e dos ônibus são constantes na mídia. Como há uma ineficiência crônica nos serviços prestados por empresas licitadas, as pessoas evitam se locomover com esses meios e utilizam o carro próprio, gerando quilômetros de congestionamento nas principais vias no horário de pico. As sucessivas falhas mostram que o gerenciamento do setor perdeu o rumo e foi parar na estação do descontentamento dos clientes, que são trabalhadores que perdem tempo na locomoção de casa para o trabalho e muitas vezes chegam atrasados aos seus compromissos por conta da incapacidade das conduções em funcionar bem.

A grande novidade do momento é a implantação do bilhete único. Agora o carioca que precisa sair de um município para outro dentro da região metropolitana vai pagar apenas R$ 4,40 em um intervalo de duas horas. O novo sistema já conta com quase 1,8 milhão de usuários. No entanto, a iniciativa veio tarde e um pouco defasada. Dependendo da localidade, é difícil fazer o percurso no tempo válido do bilhete. Em São Paulo, por exemplo, existe desde 2004 e sua validade é de três horas com o custo de R$ 2,70, quando se utiliza somente ônibus, e R$ 4,07 se incluir metrô ou trem. A população do Rio de Janeiro paga caro por um serviço precário.

A realidade do metrô é curta e abafada. Quem utiliza sabe que tem de ficar em um espaço muito estreito e se apoiando de forma inadequada. Os vagões com excesso de pessoas e o nervosismo dos passageiros com o serviço tornam a ida para o trabalho uma cansativa jornada. Recentemente, foi inaugurada a Linha 2, que vai do terminal Pavuna a Botafogo. Nos primeiros dias o serviço esteve à beira do caos porque os usuários não estavam informados a ponto de entenderem a nova configuração do serviço. A rapidez e o conforto, prometidos pela Agetransp e a concessionária Metrô Rio, foi da boca para fora. O que se viu foi muita reclamação, aumento dos intervalos e uma confusão generalizada.

Não adianta anunciar que em 2011 estarão disponíveis mais 19 trens. A população vive o presente, não o futuro. E a atual situação é de superlotação, ar condicionado de potência desproporcional à demanda e idosos e crianças correndo o risco de se machucar pelo desespero de quem não quer levar uma advertência do patrão. Esses problemas acontecem porque a população que utiliza o metrô aumentou, e a expansão das estações ficou emperrada. Apenas duas foram inauguradas nos últimos dez anos.

O irmão mais velho e acabado do metrô sofre de uma doença pior ainda. Se os trens da Supervia fossem supermodernos, a notícia de que um que fazia o trajeto do ramal Japeri andou sem maquinista poderia até fazer algum sentido. Os vagões andaram em alta velocidade até serem desligados pela central da empresa. Ou seja, nota zero para segurança. Quem paga quer conforto e a certeza de que vai chegar ao destino ileso. Como a grande maioria dos trens não possui ar condicionado, com o intenso calor que faz neste verão, a temperatura dentro dos vagões é um risco à saúde de quem sofre picos de pressão arterial. Diariamente, 500 mil passageiros sentem na pele a falta de estrutura sobre os trilhos da cidade, além de conviverem com atrasos, paralisações e cancelamento de viagens sem aviso prévio.

O cotidiano de quem frequenta as barcas não é muito diferente. Atrasos nas saídas e lotação também chegam ao transporte hidroviário. No ano passado a CPI das Barcas aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro culpou a concessionária pelo acidente com 25 pessoas na rampa da estação da Ilha de Paquetá e os transtornos que passageiros enfrentam na travessia da Baía de Guanabara.

A realidade dos ônibus é ainda mais cruel. Os horários são irregulares, a tarifa não é compatível com a maioria dos salários de quem utiliza os ônibus, o trânsito congestionado deixa o tempo de viagem incerto, além de assaltos serem frequentes em linhas da Zona Sul e Norte. E o pior de tudo é que esses coletivos jogam quantidades enormes de gases poluentes na atmosfera, deteriorando ainda mais a qualidade do ar que o povo carioca respira, além de contribuírem para o aquecimento global.

O carioca precisa estar atento e cobrar da Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes uma fiscalização mais rígida que garanta um serviço de qualidade ou acionar o Procon (Programa de Orientação e Proteção ao Consumidor), porque quem sustenta as empresas de transporte somos nós, trabalhadores que pagamos caro por um serviço que não dá conta do recado.

André Esteves é advogado e professor universitário.